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Alinhamento de planetas, explosão de uma supernova ou cometa? As 3 teorias que podem explicar a Estrela de Belém (ou não)


Não há provas de que existiu. Não há provas de que não existiu. E pode nem ter sido uma estrela. A explicação sobre a Estrela de Belém é milenar. Há 3 teorias. Todas vão dar a um beco sem saída.

Por Marta Leite Ferreira

Quando Jesus nasceu em Belém de Judeia, reinada por Herodes, uns magos viajaram do Oriente até Jerusalém. Disseram que tinham sido guiados pela estrela do “nascido rei dos judeus” e queriam adorá-lo. Herodes, percebendo que o trono podia estar em risco, chamou os reis magos e pediu-lhes mais informações “acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera”. A seguir enviou-os a Belém e pediu-lhes que o avisassem quando encontrassem Jesus sob pretexto de também ele o querer visitar. Os reis magos partiram e eis que a estrela que tinham visto no oriente apareceu uma vez mais nos céus, à frente deles. E só parou por cima do estábulo onde Jesus tinha nascido.

Ponto final. Esta é toda a história que sabemos sobre a Estrela de Belém.

Estrela de Belém, um fenômeno perdido no tempo e sem registos

Ao longo dos séculos vários astrônomos voltaram os olhos para os telescópios e fizeram cálculos à procura de uma pista que desvendasse que estrela tinha aparecido aos reis magos. Mas não podiam fazer muito mais do que folhear a Bíblia uma e outra vez em busca de pormenores que nunca encontraram. “Dos quatro evangelhos há apenas um que fala da Estrela de Belém, que é Mateus. Mas São Mateus não diz exatamente o que foi visto, não descreveu aquilo que lá estava”, explica Rui Agostinho, professor do departamento de física da Universidade de Lisboa, ao Observador. Só diz que os magos viram uma estrela ao surgir a nascente e que foram à procura do bebé. Em Jerusalém ninguém sabia de nada. Se houve alguma coisa no céu, não chamou a atenção de ninguém. Ou pelo menos não ficou nada registado.

É como se os cientistas estivessem encurralados num beco sem saída. Nenhum pode dizer terminantemente que a Estrela de Belém nunca existiu e que nunca serviu de guia aos reis magos, mas também ninguém está em condições de negar que ela apareceu. As dúvidas adensam-se porque “o texto bíblico de São Mateus é muito parco em detalhes, não diz nada sobre o que terá acontecido no céu”, sublinha Rui Agostinho. Nem os contributos dos outros evangelistas podem dizer muito mais aos astrônomos.

É como se os cientistas estivessem encurralados num beco sem saída. Nenhum pode dizer terminantemente que a Estrela de Belém nunca existiu e que nunca serviu de guia aos reis magos, mas também ninguém está em condições de negar que ela apareceu. As dúvidas adensam-se porque "o texto bíblico de São Mateus é muito parco em detalhes, não diz nada sobre o que terá acontecido no céu", sublinha Rui Agostinho.

São Marcos, que é uma década mais antigo que Mateus, não refere nada sobre este evento apesar de ter um texto mais original daquilo que era a catequese oral feita para os cristãos a relatar a tradição de quem viveu com Cristo naqueles tempos, garante o astrônomo. Nem mesmo São Lucas, que começa o evangelho com a promessa de ter “diligentemente investigado tudo desde o princípio”, fala de uma Estrela de Belém, apesar de ter escrito sobre a história de Virgem Maria. “São Mateus é o único, por isso o evangelho dele é o único texto em que a astronomia se pode agarrar no estudo da Estrela de Belém”, conclui Rui Agostinho.

Mas há coisas que batem certo. São Mateus relata que Herodes, ao perceber que os reis magos não o voltariam a visitar, mandou matar todas as crianças com menos de dois anos na tentativa desesperada de se manter no poder e eliminar a ameaça que seria aquela criança, o Messias. Foi o Massacre dos Inocentes e esse aconteceu mesmo, provam outros registos que não os bíblicos e os censos que ficaram da altura. Além disso, São Lucas afirma que o imperador César Augusto tinha feito um decreto a ordenar um recenseamento, algo que aconteceu realmente quando Quirino era presidente da Síria. Foi por isso que José e Maria, ainda grávida, foram até Belém inscrever-se porque essa era a terra do pai de José. E foi só por isso que Jesus nasceu lá, diz São Lucas: ” E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz”.

Esses são dados históricos preponderantes para os astrônomos e para os historiadores. Como ninguém sabe em que data Jesus Cristo de facto nasceu, a única informação de contexto que se pode ter é que ele veio ao mundo na mesma época em que Quirino era presidente da Síria, enquanto Herodes era rei de Israel e quando César Augusto fazia um recenseamento no Império Romano.

No entanto, se esses dados podiam facilitar a vida aos estudiosos da Estrela de Belém, que assim saberiam com mais exatidão em que época é que o fenômeno aconteceu, na verdade eles só levantam mais dúvidas. É que Públio Sulpício Quirino foi nomeado governador da Síria quando Arquelau, filho e sucessor de Herodes na Judeia como tetrarca, foi demitido. Isso só aconteceu em 6 d.C, ano em que aconteceu o primeiro recenseamento da história do Império Romano. E isso confunde ainda mais a matemática: o ano 6 não é uma data possível para o nascimento de Jesus se ele tiver de facto vindo ao mundo enquanto Herodes reinava Israel. Herodes, o Grande, ficou à frente de Israel desde 57 a.C. até à morte, que pode ter acontecido em 1 a.C. ou no ano 4. Nem com uma data nem com outra o reinado — ou sequer a vida — de Herodes em Israel coincide com o reinado de Quirino na Síria.

Esses são dados históricos preponderantes para os astrônomos e para os historiadores. Como ninguém sabe em que data Jesus Cristo de facto nasceu, a única informação de contexto que se pode ter é que ele veio ao mundo na mesma época em que Quirino era presidente da Síria, enquanto Herodes era rei de Israel e quando César Augusto fazia um recenseamento no Império Romano. No entanto, esses dados só levantam mais dúvidas.

Afinal, o que é pode ter sido mesmo a Estrela de Belém?

À conta de tudo isto, ninguém sabe exatamente o que é que aconteceu. Não há certeza alguma. Mas se os cientistas queriam começar por algum lado tinham de colocar alguns pontos nos is. O primeiro foi posto na época da história em que os astrônomos se concentraram em estudar o céu noturno. Para isso resolveram acertar os dados históricos: apesar de o reinado de Herodes não coincidir temporalmente com o de Quirino, não era impossível que ele tivesse escrito “Quirino” em vez de “Quintílio”. Públio Quintílio Varo foi governador da Síria entre 6 a.C. e 4. a.C., o que faz mais sentido dentro do contexto histórico dado pelo evangelista. E mesmo admitindo que São Lucas queria realmente referir-se a Quirino, esse senador romano foi cônsul do Império Romano a partir de 12 a.C.. Por isso, decidiram que iriam contar as observações feitas por volta dessa época.

O segundo ponto no i foi posto na palavra “estrela”, alerta o astrônomo e professor Rui Agostinho: “A palavra ‘estrela’ foi mal traduzida. Para os dias de hoje a palavra ‘estrela’ designa um tipo particular de objeto astronômico, diferente de uma galáxia, diferente de um cometa, por aí adiante. Na altura, essa palavra não existia: o que existia era a palavra ‘astro’. O correto seria a palavra ‘astro’ porque isso designava qualquer objeto que estivesse no céu. Falar da Estrela de Belém significa falar de um astro ou de um fenômeno que aconteceu no céu”, explicou.

O terceiro ponto no i tem a ver com a expressão “no oriente”. O capítulo 2 do evangelho de São Mateus abre com a frase: “E, tendo nascido Jesus em Belém de Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém dizendo: ‘Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo'”. Mas de acordo com David Hughes, astrônomo da Universidade de Sheffield (Inglaterra), a tradução está errada: “O termo ‘no oriente’ está incorreto. Originalmente estava escrito ‘en té anatolé’ (grego singular) enquanto ‘oriente’ normalmente é ‘anatolai’ (grego plural). ‘Anatolé’ tem um significado astronômico especial, indicando o nascer visível mais inicial de uma estrela ao amanhecer — o nascer helíaco. Então, o segundo verso devia ser: ‘Porque vimos a sua estrela aparecer aos primeiros raios da madrugada, e viemos a adorá-lo’“.

"A palavra 'estrela' foi mal traduzida. Para os dias de hoje a palavra 'estrela' designa um tipo particular de objeto astronômico, diferente de uma galáxia, diferente de um cometa, por aí adiante. Na altura, essa palavra não existia: o que existia era a palavra 'astro'. O correto seria a palavra 'astro' porque isso designava qualquer objeto que estivesse no céu. Falar da Estrela de Belém significa falar de um astro ou de um fenômeno que aconteceu no céu", explicou Rui Agostinho.

O quarto e último ponto no i diz respeito às aparições da Estrela de Belém. O astrônomo David Hughes notou que a Bíblia não sugere que o astro esteve sempre no céu, mas antes que houve duas aparições: ela apareceu a primeira vez para motivar os reis magos a sair do ocidente e a rumar à Judeia; mas depois desapareceu e só voltou a surgir quando os reis magos já estavam em Jerusalém para os conduzir até ao sítio em Belém onde Jesus estaria. Como a Bíblia indica que a Estrela “ia diante deles” e que depois “se deteve”, David Hughes sugere que ela estaria no zênite.

A teoria do Grande Alinhamento e as outras

Tendo tudo isto em conta, ao longo dos séculos os cientistas chegaram a três teorias sobre o que poderia ter sido afinal a Estrela de Belém. A mais sustentada tem sido a da conjunção tripla de planetas, uma proposta feita originalmente pelo astrônomo alemão Johannes Kepler em 1614. Por estarem mais longe do Sol, os planetas Júpiter e Saturno são ultrapassados pela Terra e nessa altura parece-nos a nós que estão a andar para trás. A isso chama-se movimento retrógrado dos planetas no céu. Algures nesse movimento eles podem alinhar-se. Ora, Kepler viu isso a acontecer e calculou acertadamente que esses dois planetas gasosos estavam próximos um do outro no ano 7 a.C. e que se devem ter alinhado enquanto passavam um pelo outro na constelação de Peixes, explicou Rui Agostinho ao Observador.

Em duas ocasiões em que os planetas tiveram uma conjunção, Marte também estava na constelação de Peixes e extremamente próximo deles. Não estava exatamente alinhado com Júpiter e Saturno mas estava muito próximo, adianta o astrônomo Rui Agostinho. “O facto de ter acontecido no ano 7 a.C. bate bem com aquilo que os historiadores dizem acerca do ano de nascimento de Jesus Cristo. Juntando os dados que os historiadores estudam sobre quando ele terá nascido, esse ano é extremamente plausível”, indica ele.


Uma conjunção entre a Lua, Vénus e Júpiter no céu noturno junto ao Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul. Créditos: Observatório Europeu do Sul

Christiaan Sterken, vice-presidente da Comissão C3 da União Astronômica Internacional, dedicada ao estudo da história da astronomia, explicou ao Observador como é que Kepler fez todas essas contas. À época, “quando Kepler ainda vivia na cidade austríaca de Graz, reparou que Júpiter e Saturno iam-se aproximando cada vez mais até que podiam ser vistos a olho nu de forma muito brilhante”, explica Sterken. Ele sabia que Saturno demorava 30 anos a dar uma volta completa ao Sol e que a translação de Júpiter demorava 12 anos. Rapidamente percebeu que, sendo assim, os dois apareciam no mesmo sítio — ou seja, na mesma cidade — a cada 20 anos.

Quando Kepler estava em Praga, a 7 de dezembro de 1603, ele reparou que estes dois planetas brilhantes se aproximaram tanto um do outro que quase se tornaram “numa única luz celestial muito brilhante” dentro da constelação de Sagitário, descreve Christiaan Sterken: “Mas menos de um ano depois, um terceiro planeta, Marte, chegou-se perto desses. Depois uma nova estrela apareceu perto de Marte e de Júpiter. Kepler publicou um livro ‘De stella nova in perguntar Serpentarii ‘. À tal nova estrela, os astrônomos chamam hoje uma supernova”, esclarece o membros da União Astronômica Internacional ao Observador. Ou seja, três planetas alinharam-se e, para aumentar ainda mais o espetáculo celeste, uma supernova — a SN 1604 Ophiuchi — explodiu na mesma região do céu.

Quando Kepler estava em Praga, a 7 de dezembro de 1603, ele reparou que estes dois planetas brilhantes se aproximaram tanto um do outro que quase se tornaram "numa única luz celestial muito brilhante" dentro da constelação de Sagitário, descreve Christiaan Sterken da União Astronómica Internacional.

Mas se isto é o que significa, à luz da ciência, a Estrela de Belém, então de que corpos celestes estamos a falar? E quando é que eles se juntaram? Christiaan Sterken explica que os cálculos de Kepler dizem que estas aparições de Júpiter e Saturno acontecem mais ou menos a cada 800 anos. “Além disso, ele tinha lido que o monge Dionísio, o Exíguo, que viveu no século VI, já tinha sugerido que Jesus devia ter vindo ao mundo em 4 a.C.. E Kepler descobriu que dois anos antes disso tinha havido várias conjunções, não em Sagitário mas na constelação de Carneiro”, acrescenta ele.

Segundo o astrônomo David Hughes, Johannes Kepler relatou que Júpiter e Saturno entraram em conjunção três vezes em seis meses, algo que acontece a cada 120 anos: “Uma conjunção desse gênero ocorrerá a cada 120 anos e uma similar terá ocorrido em 7 a.C.”, concluiu ele no estudo de 1976. Charles Pritchard, um astrônomo britânico do século XIX, confirmou matematicamente que deve ter havido uma conjunção de três planetas na constelação de Peixes a 29 de maio, a 29 de setembro e a 4 de dezembro do ano 7 a.C.. Depois, em fevereiro de 6 a.C., Marte também se aproximou de Júpiter e Saturno e os três formaram um triângulo equilateral, uma situação conhecida por aglomeração de planetas.

Entre o ano 12 a.C. e 70 d.C. houve 200 conjunções de planetas e 20 agrupamentos de corpos celestes, contabilizou o astrônomo Roger W. Sinnott. Apenas seis foram visíveis no Médio Oriente. Dois são especialmente promissores para explicar a Estrela de Belém porque acontecem entre os dois planetas mais brilhantes do céu noturno — Vénus e Júpiter. Uma aconteceu a 12 de agosto de 3 a.C. e foi visível durante a madrugada no oriente, entre as 03:45 h e as 05:20 h, na constelação de Leão. Outra aconteceu a 17 de junho de 2 a.C., quando Vénus e Júpiter se juntaram perto do horizonte. Mas há um problema? Todos aconteceram depois da morte de Herodes.

Uma estrela ou um cometa

O segundo fenômeno que pode explicar o aparecimento da Estrela de Belém é ter-se tratado de um cometa, embora Christiaan Sterken ressalve que “os cometas não costumam ser confundidos com estrelas”. Os cometas são corpos do Sistema Solar compostos de rochas, poeira, gelo, e gases congelados que quando se aproximam do Sol passam a exibir uma cauda. Folheando os registos chineses vindos da Babilônia, encontram-se duas referências a um corpo celeste com essas características. E alguns cientistas acreditam que esse sim pode ser o fenômeno da Estrela de Belém.

Uma dessas referências está num livro chamado “Ch’ien-han-shu” ou “História da Antiga Dinastia de Han” e diz: “No segundo ano do período de Ch’ien-p’ing, segundo mês, uma hui-hsing apareceu em Ch’ien-niu durante mais do que dias”. Ora, hui-hsing significa “uma estrela brilhante” e Ch’ien-niu é a constelação que engloba as estrelas Alpha e Beta Capricornii. Além disso, o segundo mês do segundo ano do período de Ch’ien-p’ing equivale ao ano 5 a.C. algures entre 10 de março e 7 de abril. Em suma, a frase pode traduzir-se para: “Durante o intervalo entre 10 de março e 7 de abril de 5 a.C., um cometa apareceu perto das estrelas Alpha e Beta Capricornii e permaneceu visível durante mais do que 70 dias“.

A outra referência está no livro “História dos Três Reis – A Crônica de Samguk Sagi”, que tem os registos astronômicos feitos na península da Coreia. Nesse livro pode ler-se: “Ano 54 de Hyokkose Wang, segundo mês, dia Chi-yu, uma po-hsing apareceu em Ho-Ku“. Neste contexto, Ho-Ku é uma constelação chinesa que inclui a estrela Altair e várias estrelas do sul da constelação de Águia. A palavra po-hsing é uma estrela tão brilhante que parece ter raios ou com um cometa sem cauda.

Os cometas são corpos do Sistema Solar compostos de rochas, poeira, gelo, e gases congelados que quando se aproximam do Sol passam a exibir uma cauda. Folheando os registos chineses e vindos da Babilônia, encontram-se duas referências a um corpo celeste com essas características. E alguns cientistas acreditam que esse sim pode ser o fenômeno da Estrela de Belém.

Apesar de a descrição ser promissora, aqui é a data que não o é: o dia Chi-yu não existia no segundo mês daquele ano. No entanto, na escrita chinesa, a palavra Chi-yu é muito parecida à palavra I-yu. Se assim for, então o “ano 54 de Hyokkose Wang, segundo mês, dia I-yu” pode traduzir-se para “31 de março de 4 a.C. uma estrela com raios apareceu perto de Altair”. Isso também está temporalmente alinhado com o nascimento de Jesus, mas existe a possibilidade de serem, na verdade o mesmo corpo celeste: “Neste caso, o objeto deve ter aparecido próximo à fronteira entre as duas constelações chinesas, daí ter sido localizado entre Altair no norte e Alpha e Beta Capricornii no sul. A estrela teria sido assim posicionada, concluíram, perto da estrela de terceira magnitude Theta Aquilae“, explica uma página de interpretação dos registos.

Tudo isto está de acordo com os registos deixados pelo apóstolo São João numa história que não consta na Versão Autorizada da Bíblia. No capítulo 21, número 2, do proto-evangelho de São João, ele revela a resposta que os reis magos deram a Herodes quando este os questionou sobre a estrela que os havia guiado. E diz: “Ouvindo isto, Herodes ficou perturbado e enviou mensageiros aos magos. Convocou os príncipes e os sacerdotes e fez-lhes a pergunta: ‘O que está escrito sobre o Messias? Onde deverá nascer?’. Eles responderam: ‘Em Belém da Judeia, conforme as Escrituras’. Dispensou-os e perguntou aos magos: ‘Que sinal vistes indicando o nascimento desse rei?’. Responderam os magos: ‘Um grande astro brilhou entre as demais estrelas de forma a ocultar-lhes. Soubemos, então, que em Israel havia nascido um rei e viemos para adorá-lo’. Disse Herodes: ‘Ide e buscai-o para que também eu possa adorá-lo’“.


Cometa Halley em 1910. Créditos: Wikimedia Commons

Como a Bíblia sugere que a Estrela de Belém não esteve sempre no céu — surgiu duas vezes perante os reis magos — esta teoria é plausível: podia ser que, no fundo, a luz do Sol tenha simplesmente ofuscado a luz vinda da estrela durante o dia. No entanto, os cometas também podem aparecer duas vezes no céu mas isso não se sabia à época: “Não era geralmente reconhecido há dois mil anos que os cometas podiam ser vistos duas vezes, uma ao aproximar-se do periélio — onde desaparecia com o brilho do Sol — e outra ao afastar-se dele. Ninguém diria que era o mesmo cometa. Provavelmente pensaria que eram dois cometas diferentes”, explica Colin Humphreys num estudo da Real Sociedade de Astronomia.

A Bíblia também sugere que a Estrela de Belém terá parado a certa altura, à chegada dos Reis Magos no estábulo onde Jesus estava. À luz da ciência também não é impossível que um cometa pareça estar quieto no céu, dependendo da velocidade a que se desloca e da passagem da Terra por ele. De qualquer modo, essa percepção também pode ter raízes nas investigações científicas da época: “Na época de Cristo, a teoria prevalecente dos cometas devia-se a Aristóteles, que propusera que os cometas eram objetos sub lunares localizados na alta atmosfera. Essa teoria era coerente com o modelo aristotélico de cometas que ficavam por baixo das ‘esferas celestes’, contendo o Sol, a Lua, planetas e estrelas fixas, e presumivelmente também parecia ser consistente com observações visuais de cometas brilhantes que muitas vezes parecem estar próximos Terra”, descreve Colin Humphreys.

Se a Estrela de Belém tiver sido um cometa, um dos candidatos possíveis é o Halley, que passou pela Terra no ano 12 a.C.. “O Halley ficou famoso muito depois porque entre 1066 e 1910 passou novamente muito próximo da Terra e exibiu uma cauda espetacular. A passagem de 1305 fica registada porque o pintor Giotto di Bondone, que pintava frescos e estava a preparar a Capela Arena, fez uma figura da Natividade que tem por cima o cometa Halley. E isso entrou para a história do povo cristão”, contextualiza o astrônomo Rui Agostinho em entrevista ao Observador.

Se a Estrela de Belém for um cometa, um dos candidatos possíveis é o Halley, que passou pela Terra no ano 12 a.C.. "O Halley ficou famoso muito depois porque entre 1066 e 1910 passou novamente muito próximo da Terra e exibiu uma cauda espetacular. A passagem de 1305 fica registada porque o pintor Giotto di Bondone, que pintava frescos e estava a preparar a Capela Arena, fez uma figura da Natividade que tem por cima o cometa Halley. E isso entra para a história do povo cristão", contextualiza o astrônomo Rui Agostinho.

A passagem do cometa Halley pela Terra em 12 a.C. é promissora em termos históricos, mas improvável, avisa contudo Máximo Ferreira, diretor do Centro Ciência Viva de Constância-Parque de Astronomia: “A aparição de um cometa, para além de não se encontrarem coincidências de aparições de tais astros no período em que Jesus terá nascido, encontra ainda fraca possibilidade de ele servir para um anúncio de tão relevante importância quando, na época, os cometas eram encarados como anunciadores de grandes desgraças”, recorda.

Além disso, os registos da passagem do cometa Halley em 12 a.C. não sugerem nenhuma observação tão espetacular como aquela de que São Mateus ou São João falam. É verdade que foi visto duas vezes, tal como sugerido nos textos bíblicos — uma vez a 12 de agosto de 12 a.C. e outra a 10 de setembro do ano mesmo ano — e também é verdade que passou muito perto da Terra, a apenas 24 milhões de quilômetros. Os chineses descreveram o cometa Halley como uma po-hsing, isto é, um cometa sem cauda. E dizem que não era particularmente brilhante, tanto que a magnitude do Halley ficou-se pela categoria +1 — a Lua Cheia tem magnitude -13 e o Sol tem magnitude -27. Até a Estação Espacial Internacional, com magnitude -6, seria mais visível que o cometa Halley.

A explosão de uma supernova

A terceira teoria mais estudada é a de que os reis magos tenham, na verdade assistido à explosão de uma supernova, embora “as supernovas deixem sinais no céu e não tenham sido encontrados nenhuns na era de Jesus”, diz o membro da União Astronômica Internacional. Essas explosões são extremamente brilhantes e simbolizam um evento astronômico que ocorre durante os estágios finais da evolução de algumas estrelas. Em alguns dias, esse brilho pode aumentar drasticamente ao ponto de se assemelhar a uma galáxia e permanece visível durante várias semanas. O problema desta teoria? Não há qualquer registo, bíblico ou pagão, da explosão de uma supernova na época em que Jesus deve ter nascido. Além disso, a existir, essa explosão “não revelou, até agora, quaisquer vestígios, facto que, mesmo a dois mil anos de distância temporal, se deveria verificar atualmente, com os conhecimentos, tecnologias e técnicas disponíveis”, explica Máximo Ferreira.


Supernova de Kepler. Créditos: NASA

Em chinês, a palavra referente a uma supernova é k’o-hsing. Quem acredita que foi este o fenômeno observado pelos reis magos argumenta que, apesar da precisão dos registos astronômicos, nem sempre os observadores da época distinguiam uma supernova de um cometa sem cauda, uma po-hsing. Mas de qualquer modo, nem uma coisa nem outra parece ter sido vista entre os anos 20 a.C. e 10 d.C. Na verdade, só há três fenômenos que coincidam com a descrição feita por São Mateus de um astro que se moveu pelo céu e depois parou: o Halley em 12 a.C., que foi visto durante 56 dias, a estrela avistada durante 70 dias entre 10 de março e 7 de abril de 5 a.C.; e um cometa avistado em 4 a.C.. Não se fala em momento algum de uma supernova nem de um cometa sem cauda.

A terceira teoria mais estudada é a de que os reis magos tenham, na verdade assistido à explosão de uma supernova. Essas explosões são extremamente brilhantes e simbolizam um evento astronômico que ocorre durante os estágios finais da evolução de algumas estrelas. Em alguns dias, esse brilho pode aumentar drasticamente ao ponto de se assemelhar a uma galáxia e permanece visível durante várias semanas. O problema desta teoria? Não há qualquer registo, bíblico ou pagão, da explosão de uma supernova na época em que Jesus deve ter nascido.

Por agora, tudo não passa de um talvez. Talvez a Estrela de Belém tenha mesmo existido, algo que é bem possível para Máximo Ferreira: “Acredito que a generalidade dos cientistas que se debruçaram sobre este assunto, embora desgostosos por não conseguirem decifrar o enigma, não colocam qualquer objeção a que a citação corresponda a algum fenômeno observado. O facto de não conseguirmos ter a certeza do que foi, não significa que não tivesse sido visto e interpretado qualquer fenômeno no céu”, disse ele ao Observador.

Talvez não tenha havido qualquer fenômeno astronômico que tivesse coincidido com o nascimento de Jesus e a comunidade científica continua dividida quanto a isso. “Os cientistas que apoiam a existência sempre deixam em aberto várias possibilidades, enquanto a negação é principalmente expressa como dizendo que não há evidências sólidas que comprovem que houve realmente uma Estrela. A imprecisão dos textos antigos é um problema constante”, conclui Christian Staark da União Astronômica Internacional.

Até o local de nascimento de Jesus é posto em causa, sublinha ele: “Quando eu era mais novo viajei de Nazaré para Jerusalém de autocarro. São 150 quilômetros e eu só me perguntava como é que isso podia ser feito com um burro e uma mulher em fim de gestação apenas para cumprir um recenseamento”. As opiniões modernas preferem olhar para uma aldeia que era conhecida como Belém da Galileia e que fica perto de Nazaré, a apenas 15 quilômetros de distância”, afirma Staark.

Dúvidas há muitas, certezas muito poucas. A curiosidade, essa, permanece dentro da comunidade científica. E há quem mantenha a fé de encontrar respostas.

ilustração de Raquel Martins

FONTE: observador.pt

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