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E se fosse descoberto um asteroide em rota de colisão com a Terra? Astrônomo conta o que rola



POR SALVADOR NOGUEIRA

O que aconteceria se um asteroide fosse descoberto em rota de colisão com a Terra? Cristóvão Jacques, astrônomo que lidera o Observatório SONEAR, em Oliveira (MG), maior centro descobridor de asteroides perigosos no hemisfério Sul, já esteve nessa situação duas vezes e pode contar como a coisa se desenrola — e como é difícil prosperar uma conspiração para esconder um eventual impacto da população.

O trabalho de descobrir asteroides consiste basicamente em tirar várias imagens sequenciais da mesma região do céu, em busca de objetos que estejam se movendo de uma foto para outra. Objetos que se movimentem nesse curto espaço de tempo “entregam” que estão em órbita ao redor do Sol, e o passo seguinte é reobservá-los, em cooperação com cientistas do mundo todo, para refinar a órbita e determinar os riscos que ele oferece.

“O processo é o seguinte: a gente descobre o asteroide, verifica se ele já não é conhecido, e, caso não exista na base de dados, a gente envia para o Minor Planet Center [órgão da União Astronômica Internacional], que é o centro que coleta essas informações”, conta Jacques ao Mensageiro Sideral. “O Minor Planet Center recebe essa informação e disponibiliza esse objeto numa página, e aí os cientistas e observatórios do mundo inteiro vão tentar seguir aquele asteroide para melhorar a [estimativa da] órbita dele.”



Mas e se, numa avaliação preliminar, o asteroide recém-descoberto parece mesmo estar em rota de colisão conosco?

“Ano passado, mais ou menos em abril, nós descobrimos um objeto e aí eu vi como funciona o esquema”, diz o astrônomo. “Ele disparou um alarme, pessoal da Nasa, pessoal da Itália, não sei o quê, e aí começaram a pipocar perguntas para mim. ‘E aí, você conseguiu [fazer mais imagens dele]?’ Porque a gente observa o asteroide e logo depois, uma hora depois, duas horas depois de a gente descobri-lo, a gente tenta fazer mais uma imagem dele para ter uma órbita melhor.”

“Mas nesse tempo, entre a descoberta e o tempo em que eu consegui fazer o segundo lote de imagens, começaram a pipocar as observações, e o pessoal mandando os e-mails, eu via eles dando aquele ‘forward’ na mensagem, e eu vi ali, ‘alerta, não sei o quê, asteroide com tanto percentual de probabilidade de chocar com a Terra, não sei quê, tarará’. E aí, no momento que nós fizemos a segunda observação, que eu enviei, vi que não era um asteroide — era um satélite artificial ou lixo espacial que estava perdido, que não estava catalogado. Então, a partir da segunda observação, excluímos toda a questão de possibilidade de bater na Terra. Então, esse foi o primeiro caso.”

Jacques teve outro “quase” desses poucos meses depois. E aí foi mesmo um asteroide, e não um satélite artificial desgarrado. “Descobrimos em agosto do ano passado, no final da madrugada, lá para as 4h da madrugada. E às 5h da manhã, eu estava acordado, fiz uma segunda imagem desse asteroide e eu vi que ele ia passar a 80 mil km da Terra mais ou menos 20 horas depois. Ele é do tamanho do Tunguska, para você ter uma ideia. Ou seja, se batesse na Terra, poderia causar…”

O evento Tunguska ocorreu na Rússia em 1908, em que um bólido celeste de cerca de 30 metros explodiu ao entrar na atmosfera da Terra, com uma energia cerca de mil vezes a da bomba atômica de Hiroshima. Devastou uma área de aproximadamente 2.000 km2 na Sibéria. Felizmente era uma região desabitada.

Em 2013, tivemos o evento Chelyabinsk, também na Rússia, em que um asteroide de aproximadamente 17 metros quase reeditou o episódio Tunguska. A onda de choque danificou prédios na cidade de Chelyabinsk e feriu milhares de pessoas, mas ninguém morreu.

Esse objeto foi descoberto de manhãzinha, e no final da noite ele já ia passar a 86 mil km da Terra. Então, com a segunda observação, já tem uma ideia razoável de onde ele vai passar.

Com isso, pode-se imaginar a apreensão de Jacques quando sua primeira observação indicava uma passagem muito próxima da Terra — 80 mil km é cerca de um quinto da distância até a Lua. Mas sua segunda observação, feita naquele mesmo dia, refinou a órbita e afastou o risco de impacto.

As histórias revelam como funciona o sistema de detecção de asteroides — é um esforço colaborativo, pois nem sempre os mesmos astrônomos estão no momento exato na posição ideal na Terra para acompanhar o objeto. Com isso, é extremamente improvável que alguém possa descobrir um asteroide em potencial rota de colisão e não contar nada. E se, por acaso, um grupo tentar esconder uma descoberta, ela acabará sendo “redescoberta” por outro grupo em questão de dias. “Eu vou dizer que é muito, muito difícil ter uma conspiração de as pessoas não saberem”, diz Jacques.

Confira a seguir toda a conversa com o astrônomo do SONEAR, que está promovendo uma vaquinha para arrecadar recursos para manter o observatório em operação até o fim de 2018.



FONTE: http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br

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