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A história do inventor americano que teve uma patente recusada por ser escravo



Por: Matt Novak

O mundo da invenção é famoso por suas disputas de patente. Mas o que acontece quando sua disputa não foi com um outro inventor, mas, sim, com o Gabinete de Patentes dos EUA, que não te via sequer como uma pessoa? Em 1864, um homem negro chamado Benjamin T. Montgomery tentou patentear sua nova hélice para barcos a vapor. O Gabinete de Patentes disse que ele não tinha permissão para patentear sua invenção. Tudo porque ele era um escravo.

Benjamin T. Montgomery nasceu na escravidão, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, em 1819. Acredita-se que ele aprendeu a ler e a escrever desde cedo, algo que não era permitido à maioria dos escravos porque os brancos proprietários de escravos acreditavam que o conhecimento poderia levar a rebeliões.

A alfabetização de Montgomery lhe deu uma vantagem em sua busca posterior de diversas coisas, de pesquisas a elaboração arquitetônica. Ele até mesmo se tornou o primeiro funcionário público negro do estado do Mississippi, depois da Guerra Civil, como um juiz de paz. Mas era sua proficiência com máquinas que o tornaria notável para os livros de história — contanto que os principais livros de história americana cobrissem tais coisas.

Montgomery inventou uma série de máquinas, e documentos do século 19 alegam que elas envolviam níveis incrivelmente altos de habilidade para se fabricar. Mas o número preciso de invenções feitas por Montgomery se perdeu na história. A invenção de que mais sabemos atualmente foi sua hélice para barcos a vapor. Ele tentou patenteá-la em 1864, mas o Gabinete de Patentes dos EUA rejeitou sua solicitação porque ele era um escravo.

Por que o gabinete de patentes do Norte seria tão discriminatório contra pessoas negras durante a Guerra Civil? Joseph Holt, chefe do gabinete na época, era do Kentucky e interpretou o Caso Dred Scott como significando que uma pessoa negra livre que havia escapado para o Norte não tinha o direito de patentear sua invenção. Holt também negou a homens negros de estados mais ao norte o mesmo direito, apesar de objeções de senadores do norte como Charles Sumner, de Massachusetts.


Benjamin T. Montgomery (Imagem: Black Then)

Benjamin T. Montgomery foi vendido em um leilão de escravos em 1837 para Joseph Davis, irmão do futuro presidente do Estado Confederado da América Jefferson Davis. Os irmãos Davis viveram no sul de Vicksburg, no Mississippi, onde tinham grandes plantações próximas umas das outras.

Por duas razões, não está claro quem foi o primeiro americano negro a conquistar uma patente: o Gabinete de Patentes não exigia que as pessoas informassem sua raça ao se inscreverem para uma patente; e inventores negros às vezes usavam terceiros brancos para obter as patentes, de forma a não serem discriminados.

Dito tudo isso, o primeiro inventor negro conhecido a conseguir uma patente foi Thomas L. Jennings, de Nova York, em 1821. Mas as leis em relação a patentes mudaram com frequência na primeira metade do século 19. Durante alguns anos, era exigido que as pessoas que solicitassem uma patente americana fossem cidadãos dos Estados Unidos. Em outros momentos, os não-cidadãos foram autorizados a receber patentes americanas. E é daí que vem o problema de Montgomery. A infame decisão da Suprema Corte de Dred Scott v. Sanford em 1857 disse que os escravos não tinham legitimidade no tribunal porque não eram cidadãos. E o Gabinete de Patentes aplicou essa lógica à lei de patentes. Se Montgomery não era um cidadão, ele não podia fazer o juramento como cidadão de que sua invenção havia sido concebida por ele.

Praticamente todos os relatos modernos sobre Benjamin T. Montgomery apontam o quão “progressista” seu dono era. Mas isso é algo que, obviamente, precisa ser encarado com muito ceticismo. Mesmo que Joseph Davis permitisse a Montgomery algum nível de autonomia, como as histórias sugerem, o fazendo trabalhar como comerciante e gerente comercial na plantação, Montgomery ainda era propriedade de outra pessoa.

O livro The History of Black Business in America nos lembra dessa perspectiva:

Como escravos, Montgomery e sua família foram sujeitados a todos os horrores da escravidão. A qualquer momento, eles poderiam ter sido vendidos, separadamente ou juntos. As mulheres poderiam ter sido sexualmente abusadas por brancos com sua impunidade. É duvidoso que Davis teria alforriado Montgomery, que provou ser um escravo bastante valioso e que virtualmente geria a plantação não apenas como um CEO, mas também como um diretor de operações. Tal posição forneceu a Montgomery uma influência para proteger sua família dos piores abusos da escravidão. Quais eram suas alternativas?

[…]

Embora a vida material “privilegiada” da família de escravos Montgomery fosse altamente incomum, se não única, nos anais da escravidão americana, as atividades intraempreendedoras e empreendedoras de Benjamin Montgomery não eram. Na verdade, em grandes plantações, tais atividades eram mais a regra do que a exceção.

A natureza relativa de nossas circunstâncias é iluminada pela disputa de Montgomery com o Gabinete de Patentes. Suas invenções não podiam ser patenteadas porque ele não era visto como um ser humano, com todos os direitos que um homem branco livre poderia ter.

Professor associado de Direito na Escola de Direito de Kentucky, Brian Frye escreveu um artigo fascinante sobre Montgomery chamado “Invenção de um Escravo“. Esse estudo inclui uma descrição antiga da invenção de hélice de Montgomery:

Atuando no “princípio de remo da canoagem”, as lâminas cortam a água em um ângulo, causando menos resistência e, portanto, menos perda de potência e vibração do barco. Com essa hélice, que pesava uma fração da roda de pás convencional, não havia necessidade de uma ponte de comando. (Montgomery) Fez um protótipo que ele operava manualmente no Mississippi por dois anos antes da Guerra Civil, mas sonhava em alimentá-lo com uma máquina a vapor para que suas vantagens pudessem ser verdadeiramente testadas.

Tanto Jefferson Davis quanto seu irmão Joseph tentaram patentear a invenção de Montgomery em 1859, mas lhes foi dito que não poderiam, porque não haviam inventado o dispositivo. E os senhores de escravos viram isso como uma grande injustiça. Acredite ou não, os proprietários de escravos acreditavam que estavam sendo discriminados por não conseguirem patentear as invenções de seus escravos. Quando a Guerra Civil estourou em 1860, os novos Estados Confederados da América formaram seu próprio gabinete de patentes, mas ninguém jamais registrou uma patente com ele. Os irmãos Davis estavam muito ocupados lutando uma guerra traidora para se preocupar com essas coisas.

O artigo de Frye inclui alguns documentos sobre a era, incluindo argumentos de sulistas da época de que invenções feitas por pessoas escravas provavam que a escravidão era melhor para o povo negro. Sério.

O senador Albert G. Brown, do Mississippi, escreveu para um senhor de escravos de Holmesville, Mississippi, sobre um novo arado inventado por seu escravo:

Fico feliz de saber que seu instrumento é a invenção de um escravo negro — desmentindo, assim, o grito da abolição de que a escravidão diminui a mente do negro. Quando é que um negro livre inventou alguma coisa?

Impressionantemente, esse era um sentimento comum que permitia aos senhores brancos de escravos racionalizar a escravidão do povo negro. Um outro senador, David S. Reid, da Carolina do Norte, até apresentou um projeto de lei em 1859 que permitiria aos senhores de escravos patentear as invenções de seus escravos, mas ele nunca decolou. Jornais abolicionistas ridicularizaram a ideia, com artigos sarcásticos destacando as invenções dos escravos, como um satírico de Washington, que o jornal The National Era intitulou como: “Uma Peça Inventiva de Propriedade”.

Montgomery assumiu o controle da plantação de Joseph Davis depois de ela ser queimada por soldados da União em 24 de junho de 1862. Mas em 1863, ele chegou ao Cincinnati, onde sua hélice foi exibida na feira Western Sanitary Fair. Essas feiras eram usadas pelo Norte para arrecadar dinheiro durante a Guerra Civil, mas Montgomery encontrou um Ohio repleto de hostilidade contra pessoas de cor, apesar de ser situado no Norte.

Existe pouca documentação sobre o esforço rejeitado de Montgomery de patentear sua invenção, mas Brian Frye cita uma interessante carta que está atualmente na Universidade Rice. A carta era de William E. Simonds, o Comissário de Patentes, à Sra. Jefferson V. Davis.

A carta diz:

Cara Madame:

28 de junho de 1864, um homem de cor de nome B. T. Montgomery apresentou um pedido de patente para uma hélice neste gabinete. Ele se representou como tendo sido em algum período anterior o servo de seu marido. Gentilmente, me avise se tem algum conhecimento da correção ou incorreção de sua representação e se você sabe qual foi o fato.

Por que Montgomery se identificou como um antigo escravo? Por que os oficiais do governo no Norte queriam verificar com senhores de escravo no Sul se Montgomery havia sido um escravo? A resposta certamente decorre do “racismo”. Mas os detalhes parecem ter se perdido na história.

O resto da vida de Montgomery foi de graves altos e baixos. Ele retornou à plantação de seu ex-senhor após a Guerra Civil e a comprou secretamente de Joseph Davis e seu irmão no final de 1866. Tinha que ser em segredo porque, embora os escravos agora estivessem livres, ainda era ilegal vender terras para negros no Mississippi. Essa lei se tornou inexequível no ano seguinte, quando o governo federal buscou trazer liberdade aos ex-escravizados.

A ideia para a terra recém-adquirida de Montgomery era transformar a área em uma “comunidade composta exclusivamente de pessoas de cor”, como descreveu um anúncio que Montgomery publicou na edição de novembro de 1866 do Vicksburg Daily Times — apenas uma das várias sociedades intencionais construídas no Sul após a Guerra Civil. Montgomery a chamou de Davis Bend, mas a comunidade sempre lutou contra a hostilidade das comunidades brancas vizinhas.

Inundações e uma colheita ruim complicaram ainda mais as coisas em Davis Bend, e Montgomery não conseguiu seguir os pagamentos para seus antigos senhores, os irmãos Davis. Embora Joseph supostamente quisesse “perdoar” os pagamentos de juros e permitir que Montgomery mantivesse a terra enquanto pudesse continuar pagando a obrigação, seu irmão Jefferson, agora o líder derrotado de um ex-país traidor, não estava de acordo com nada disso. Depois que Joseph morreu em 1870, seu irmão Jefferson efetivamente roubou a terra de Montgomery.

Benjamin T. Montgomery morreu em 12 de maio de 1877, depois de uma longa batalha contra deficiência física. Ele se machucara em dezembro de 1874, enquanto ajudava a demolir uma casa, e nunca se recuperou completamente.

Suas invenções foram exibidas tanto na Feira Mundial de 1876, na Filadélfia, a primeira Feira Mundial nos Estados Unidos (apenas um ano antes de sua morte), assim como na Feira Mundial de 1893, em Chicago.

Infelizmente, não consegui encontrar ilustrações ou fotos das invenções de Montgomery em exposição. A inventividade de Montgomery foi “redescoberta” no começo do século 20, com americanos interessados na história da tecnologia descobrindo sobre sua infeliz dificuldade. O filho de Montgomery, Isaiah, deu uma entrevista a uma revista em 1909, informando parte do que sabemos sobre o inventor hoje em dia, incluindo o fato de que seu proprietário era “progressista”. Mas Isaiah teve uma relação complicada com os grupos de direitos afroamericanos que deve ser considerada quando olhamos essas alegações. Como aponta Frye, Isaiah escreveu sua própria história como o único delegado republicano negro na convenção do partido no Mississippi em 1890. Porém, estranhamente, Isaiah defendia que os negros não tivessem o direito ao voto.

Uma carta de um advogado de patentes em 1892 dá um bom exemplo do quão habilidoso Benjamin T. Montgomery era como inventor. Sugerindo que um modelo da hélice de Montgomery fosse incluído em uma exposição da Feira Mundial de 1893, o advogado escreveu que ela poderia estar em exibição com a invenção de um pedalinho de Abraham Lincoln.

“Agora, se o modelo de hélice do escravo pudesse ser adquirido e exibido no mesmo espaço que o modelo de barco do grande emancipador, isso atrairia a atenção de milhares”, escreveu o advogado de patentes. “Entretanto, tenho a impressão de que o modelo de Lincoln sofreria pela comparação.”

Imagem do topo: The Cooper Collections

FONTE: GIZMODO BRASIL

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