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Entrevista com um dos físicos mais importantes da área da Teoria das Cordas


CONTRAPROVA: PARA VAFA, A DIFICULDADE DE DEMONSTRAR A TEORIA DEVE-SE A NOSSA LIMITAÇÃO TECNOLÓGICA (FOTO: LEO MARTINS/ AGÊNCIA O GLOBO)

Cumrun Vafa, da Universidade Harvard, fala sobre a polêmica da teoria que prevê a existência de mundos paralelos

Cumrun Vafa não é um personagem de Philip K. ­Dick, mas viagens no tempo e universos paralelos fazem parte de sua rotina. Professor da Universidade Harvard, o iraniano é um dos estudiosos mais influentes na área da teoria das cordas. O conceito prevê o casamento de dois campos diferentes da física: a mecânica quântica (ciência de partículas pequenas) e a relatividade geral de Einstein (ciência de corpos maiores, como estrelas e planetas). O problema é que, para fazer sentido, a teoria precisaria de mais sete dimensões, além do tempo e das outras três já conhecidas – e até hoje não existe nada que a comprove de fato. Vafa conversou com GALILEU durante sua estada no Rio de Janeiro, onde ministrou uma aula no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

P: Como o senhor explica o que faz a quem não entende nada de física?
Acho que entender de física é uma coisa natural, já que todos nós estamos expostos à vida real. Há pessoas, acostumadas com física ou não, que se assustam com a linguagem rebuscada dos cálculos matemáticos. Mas muita coisa na física pode ser descrita sem cálculo nenhum. Um dos exemplos mais famosos vem do próprio Galileu. Para provar que a velocidade de um corpo não depende de sua massa, ele teve a brilhante ideia de jogar dois blocos iguais do alto da torre de Pisa. Obviamente, os dois tocaram o solo ao mesmo tempo. Então, ele juntou dois blocos, fazendo um bloco único com o dobro do peso, e jogou junto com os primeiros – todos caíram ao mesmo tempo. Essa ideia foi apresentada sem nenhuma matemática, só com a intuição. Ele usou um fato óbvio para chegar a outro não tão óbvio assim. Da mesma forma, é possível falar também de universos paralelos e outras dimensões.

P: Alguns cientistas acreditam que a natureza seja regulada pelo caos e defendem que uma teoria que unifica tudo, como a das cordas, é contra a física, uma redução da complexidade da natureza. Qual a sua opinião sobre isso?
Deixe-me dar um exemplo: considere o comportamento de um gás. Existem fórmulas de temperatura, pressão e volume que podem ser relacionadas a sua quantidade. Então, podemos di­zer que o comportamento caótico desses átomos pode ser explicado pela lei da termodinâmica. É claro que pode haver uma certa aleatoriedade, mas, só porque algumas coisas são reguladas pelo caos, não significa que ele comande tudo no universo.

P: Na série The Big Bang Theory, Sheldon é um físico teórico que atua na mesma área em que o senhor trabalha, a teoria das cordas. Em um episódio, os amigos brincam dizendo que ele é invejoso, porque, enquanto seus trabalhos estão progredindo, o de Sheldon não tem novidade nenhuma há 20 anos. Qual seria uma resposta adequada a essa provocação?
[Risos] A frustração faz sentido. Mas muito do esforço humano vem de tentar compreender as coisas primeiro. Se focarmos apenas nos experimentos, vamos perder um cenário muito maior. Eles dizem 20 anos, mas, na realidade, já faz quase 45 anos que trabalhamos nisso. Sabemos que a teoria da relatividade pode ser combinada com a mecânica quântica. É uma coisa fascinante, mas não temos nada no laboratório para mostrar. Então, a frustração vem da parte experimental apenas, não da teórica. De qualquer forma, estou nisso porque quero aprender mais, estou me divertindo, e acho que esse é o caso dos teóricos das cordas.

P: A teoria das cordas enfrenta bastante resistência. Como é a relação com os físicos que não concordam com ela?
A teoria das cordas é uma das áreas mais estudadas da física, está com a bola toda. Os jovens querem entendê-la não porque dependam disso para ganhar um salário, ou porque tenham uma arma apontada para a cabeça, mas porque é a que mais desperta interesse. Na ciência, aprendemos a estar abertos às grandes ideias. As pessoas devem estudar o que acham interessante, e a verdade é que a teoria das cordas domina as teorias da física nos últimos anos.

P: O senhor acha que o filme Interestelar é um retrato do que seria a teoria das cordas, caso ela se confirme?
Não. E, para ser bem sincero, não gostei muito do filme. Tem muitos elementos científicos misturados com elementos não científicos. Isso confunde as pessoas. Como cientista, não gosto disso. Eles usaram teorias muito precisas quanto aos buracos negros, mas também usaram coisas como viagens no tempo. É claro que a teoria de Einstein prevê que possamos viajar no tempo, mas apenas em uma direção: o futuro – se viajarmos mais rápido que a velocidade da luz. Nada na física diz que podemos voltar ao passado.

TEORIA DE TUDO
As cordas podem explicar como funciona o universo

Segundo a teoria das cordas, uma molécula de água (1), por exemplo, conteria prótons e nêutrons (2) que por sua vez conteriam ­quarks (3). Dentro deles ficariam as cordas (4), que formariam partículas diferentes de acordo com sua vibração. Assim, se tudo no universo tiver a mesma composição, as teorias da física poderiam ser unificadas, e compreenderíamos melhor o que hoje é desconhecido.



FONTE: REVISTA GALILEU

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