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O corpo não é um computador — pare de pensar nele como tal



Quando a ex-chefe da DARPA, Regina Dugan, anunciou em cima de um palco, no mês passado, que o Facebook planejava construir uma interface cérebro-máquina para permitir aos usuários enviar seus pensamentos diretamente para a rede social sem um teclado como intermediário, isso tinha toda a famosa arrogância do lema do Facebook de “mova-se rápido e quebre as coisas“. Com a mesma audácia com que qualquer outro produto do Facebook pode ser anunciado, Dugan explicou que a empresa espera ter essa função revolucionário pronta “dentro de alguns anos”.

É um objetivo admirável, mas tem um problema. O corpo não é um computador. Ele não pode ser hackeado, reconfigurado, projetado ou atualizado como tal; e certamente não no ritmo de uma startup do Vale do Silício.

Na última década, a ciência teve alguns notáveis progressos no uso de tecnologia para desafiar os limites da forma humana, desde próteses de membros controladas pela mente até um corpo crescente de pesquisas indicando que, um dia, podemos conseguir desacelerar o processo de envelhecimento. Nossos corpos são o próximo grande candidato a receber uma otimização tecnológica, então não é surpresa alguma que a indústria tech tenha recentemente começado a expressar interesse neles. Muito interesse.

O anúncio do Facebook de que planeja construir uma interface cérebro-máquina que digita 100 palavras por minuto veio logo após o anúncio de Elon Musk, fundador da Tesla, de que estava criando uma nova empresa de capital de risco, a Neuralink, para desenvolver um implante cerebral capaz de fazer telepatia, além de outras coisas. Outros ricos do Vale do Silício estão investindo pesado em pílulas como nootrópicos, para “hackear” a química do cérebro, e em outras pílulas, dietas, bactérias intestinais e em mergulhos de dados de DNA, na esperança de alcançar uma vida mais longa e saudável. “Os humanos são a próxima plataforma”, disse Geoff Woo, cofundador da empresa de nootrópicos Nootrobox, financiada pela Andreessen Horowitz, em entrevista à New York Magazine.

Mas somos mesmo a próxima plataforma?
Peguemos a parte mais computacional do corpo, o cérebro. Nossos cérebros não “armazenam” memórias como os computadores, simplesmente puxando algum pedaço desejado de informação de um banco de memória. Se o fizessem, você conseguiria, sem esforço, se lembrar do que você almoçou ontem ou lembrar exatamente a maneira como o seu namorado de colegial sorria. Nossos cérebros também não processam informação como um computador. Nossa matéria cinzenta não tem fios que você pode simplesmente plugar para substituir a depressão à la Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças.

O corpo, também, é mais do que apenas uma pedaço de máquina bem oleado. Ainda precisamos identificar um mecanismo biológico particular para o envelhecimento ou para a condição física que qualquer pílula ou dieta possa simplesmente “hackear”.

Pesquisas sobre alguns desses assuntos estão sendo feitas, mas, até agora, muito do que foi descoberto é que o corpo e o cérebro são incrivelmente complexos. Cientistas esperam, sim, por exemplo, que um dia as interfaces cérebro-máquina possam ajudar a aliviar casos severos de doenças mentais como a depressão, e a DARPA está atualmente financiando uma pesquisa de US$ 65 milhões (R$ 204 milhões) visando à utilização de eletrodos implantados para combater algumas das mais perniciosas doenças mentais. Após décadas de pesquisa, ainda é incerto em que áreas do cérebro sequer faz mais sentido a gente focar nossos esforços para cada doença.

Mas conforme o Vale do Silício começa a molhar seus dedos dos pés no reino da biologia, ele leva consigo seu ethos hacker. Tudo de que você precisa para alcançar feitos ambiciosos de inovação tecnológica são algumas maratonas hacker que duram a noite toda, certo?

Dentro de apenas dois anos, o Facebook acha que saberá se seu plano de enviar atualizações de status de 100 palavras por minuto de nossos cérebros para nossas telas será possível. O atual recorde de digitação com uma interface cérebro-máquina é, a propósito, algo em torno de oito palavras por minuto, com um implante colocado dentro do cérebro.

E Musk, famoso por assumir projetos aparentemente impossível sem data de entrega clara, disse que imagina a interface cérebro-máquina da Neuralink fazendo sua estreia dentro de uma década. Isso apesar do fato de que a tecnologia de leitura cerebral em que ela depende, a essa altura, é pouco mais do que apenas um projeto chique. A tecnologia disponível atualmente só consegue medir uma fração da atividade neural necessária para ligar o cérebro inteiro de alguém a um computador ou permitir-lhes se comunicar com outra pessoa sem falar.

Em 2009, o engenheiro biomédico Justin Williams, da Universidade de Wisconsin-Madison, supervisionou um esforço que, com sucesso, usou uma interface cérebro-máquina para enviar mensagens do cérebro para o Twitter.

“Foi tanto um pequeno quanto um grande passo”, contou Williams ao Gizmodo. “Dez anos depois, avançamos muito mais? Não tenho certeza.”

Algo como um email ou uma publicação no Facebook, ele apontou, é infinitamente mais complicado do que um tweet de 140 caracteres, apenas com texto. “O Twitter é o mais simples que você encontra”, disse. “Enviar um email parece fácil, mas pare um momento para pensar sobre todos os processos que estão envolvidos: preencher o assunto, o campo de endereço, o corpo. De um ponto de vista biológico e tecnológico, isso é muito complicado. Há várias partes móveis.”

Foi só no último outono que, pela primeira vez, um homem conseguiu não apenas controlar uma prótese de braço com sua mente, mas também “sentir” o braço se mexer. Isso, no entanto, ainda está muito distante de entender todos os 100 bilhões de neurônios do cérebro e suas 100 trilhões de interconexões e, então, desenvolver uma tecnologia boa o bastante para conectar cada um deles a uma máquina.

Startups como a Nootrobox e a Halo Neuroscience alegam que já estão entregando produtos prontos para o consumidor que nos deixam mais inteligentes, rápidos e fortes. Mas com tanta incerteza ainda em torno dessa ciência, é difícil provar ou refutar tais alegações. A complexidade da biologia humana significa que essa pesquisa nem sempre se move no mesmo ritmo que a Lei de Moore; e, ainda assim, quando a indústria tech aborda esses problemas, disse Williams, “existe um tipo de atitude ‘faça logo’ que é bastante universal”.

Confundir máquinas com o corpo é um hábito humano muito antigo. Nos anos 1500, autômatos movidos por molas e engrenagens levaram pensadores como René Descartes a sugerirem que os humanos são simplesmente máquinas complexas. Nos anos 1800, o físico alemão Hermann von Helmholtz comparou o cérebro a um telégrafo. Em seu livro The Computer and the Brain, de 1958, o matemático John von Neumann declarou explicitamente que o sistema nervoso humano é “prima facie digital”.

Ao longo do tempo, conforme a tecnologia se transformou, transformaram-se também as metáforas, mas a essência é a mesma: o corpo é uma máquina chique. Esse modo de pensamento fez surgir uma doutrina filosófica, financiamentos de pesquisa generosos e jargões enganadores tanto no reino da biologia quanto no da computação (por exemplo, os “circuitos” do cérebro” ou as “redes neurais de deep learning“, que têm mais em comum com modelos computacionais clássicos do que com qualquer coisa neurobiológica).

Mas esse ponto de vista se torna especialmente preocupante quando os campos da biologia e da computação se juntam. Arriscamos estar começando a tratar o corpo humano — em toda sua complexidade, fragilidade, resiliência e mistério — como as máquinas com que o comparamos. Arriscamos exagerar nas promessas do que é possível entregar, gastar tempo, dinheiro e paciência pública em pesquisas distantes que sugerimos que podemos hackear juntos em alguns anos. E arriscamos comprometer nossa saúde e bem-estar no processo.

Tanto o Facebook quanto a Neuralink contrataram as melhores mentes científicas para lidar com seus respectivos projetos. O Facebook contratou Dugan e fez parceria com a Universidade da Califórnia em Berkeley, o Johns Hopkins Medicine e outras instituições de pesquisa acadêmica proeminentes. Da mesma forma, a Neuralink trouxe pesquisadores acadêmicos de alto nível. Uma descarga de financiamento do Vale do Silício em pesquisas básicas em uma época de financiamento escasso poderia perfeitamente acabar fazendo mais pelo progresso científico do que quaisquer subsídios estatais combinados.

Ao mesmo tempo, muitos cientistas estão céticos quanto à abordagem “mova-se rápido e quebre as coisas” trabalhando muito bem quando aplicada a nós. Afinal de contas, somos organismos vivos, que respiram, e não máquinas inanimadas. Isso é algo de que devemos tentar nos lembrar.



Ilustração do topo por Angelica Alzona/Gizmodo

FONTE: GIZMODO BRASIL

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