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Anãs brancas podem ser a melhor aposta na busca de vida alienígena, diz artigo


Ilustração de como seria um asteroide sendo quebrando pela intensa gravidade de uma anã branca (Imagem: NASA’s Goddard Space Flight Center/Scott Wiessinger)

Por Daniele Cavalcante

A procura por sinais de vida extraterrestre pode ser uma das mais importantes buscas da humanidade. Afinal, por mais que sejamos esperançosos em encontrar alguma companhia, os indícios ainda apontam que estamos sozinhos no universo. Encontrar provas de que há alguma forma de vida alienígena poderia revolucionar completamente a compreensão sobre nosso lugar e papel no cosmos.

Acontece que não é fácil procurar por estes sinais. Na verdade, nem sequer sabemos como pode ser uma forma de vida em outro planeta - poderia ser algo em um mundo completamente diferente do nosso, onde a evolução aconteceu de outras formas. Mas, por enquanto, nossa melhor aposta ainda é procurar em planetas que, de alguma forma, se parecem com a Terra.

Existem vários deles por aí, orbitando estrelas que também são um pouco parecidas com o nosso Sol. Até mesmo a distância entre a estrela e o planeta é algo que podemos observar - a chamada zona habitável, uma faixa no sistema estelar na qual o planeta pode desenvolver condições de abrigar vida semelhantes às que encontramos na Terra.

É preciso observar nestes mundos a composição, atmosfera, clima, e presença de elementos essenciais à vida tal qual a conhecemos, como água e oxigênio, antes de deduzir que pode existir vida ali. É assim que atualmente os pesquisadores fazem algumas de suas buscas atualmente.

Mas e se estivermos olhando para os lugares errados? Acontece que o problema pode não ser “se” existe vida em outros planetas, mas sim “quando”. Tomemos Marte como exemplo. De acordo com o que sabemos sobre nosso vizinho, há boas chances de que ele pode ter sido habitado há muito tempo. Nesse caso, teríamos que olhar para o passado para encontrar essas formas de vida. Também há chances de que algum planeta jovem que estamos observando hoje, em outra constelação, possa desenvolver vida daqui a alguns milhões de anos.

Há outra possibilidade que ainda não foi muito cogitada - a de que alguma civilização alienígena já tenha passado pelo mesmo fim ao qual a Terra está destinada. Estamos falando do dia em que o Sol chegará ao dramático fim de seu ciclo, transformando-se em uma anã branca. Daqui a 4 bilhões de anos, nossa estrela-mãe iniciará esse processo, tornando-se muito maior e mais vermelho, à medida que o hélio se acumula em seu núcleo.


Ilustração de um objeto semelhante a um cometa que caiu em uma anã branca a aproximadamente 170 anos-luz da Terra. O evento foi detectado pelo telescópio Hubble e anunciado em 2017. O objeto era semelhante ao Cometa Halley na composição química, mas 100.000 vezes mais maciço, com uma quantidade muito maior de água. Também era rico em elementos essenciais para a vida, incluindo nitrogênio, carbono, oxigênio e enxofre (Imagem: NASA)

Nesse processo, ele se tornará uma gigante vermelha, inchando até a órbita da Terra, obliterando Mercúrio e Vênus no processo. Mas, em seguida, ele se transformará de dentro para fora. A parte mais externa da estrela continuará liberando energia, se tornará instável com o aumento de radiação e aumentará drasticamente de tamanho a uma velocidade incrível, transformando-se em uma imensa nuvem composta por materiais que antes compunham a estrela original.

Essa nuvem formará uma nebulosa planetária que vai preencher todo o Sistema Solar. Ao mesmo tempo, sobrará um pequeno corpo celeste composto por um núcleo de carbono e algum hélio e hidrogênio restantes em fusão na crosta. Esse corpo celeste é a anã branca. Alguns planetas, se sobreviverem à morte violenta do Sol, podem continuar em órbita em torno desse remanescente frio de estrela.

Este é o destino a longo prazo da Terra - e da humanidade, se durarmos até lá. Mas também é o destino de alienígenas que talvez habitem planetas como o nosso. Por isso, as anãs brancas podem ser uma pista interessante para buscar por sinais de vida. É isso o que argumenta um artigo recentemente enviado ao banco de dados on-line de pré-impressão do arXiv - é lá onde artigos científicos nos campos da matemática, física, biologia, entre outras áreas são enviados pelos autores antes de serem impressos e revisados por pares.

O astrônomo John Gertz, autor do artigo, explica que as anãs brancas da nossa galáxia são formadas a partir dos remanescentes de estrelas de classe G, ou seja, de massa igual ou um pouco mais alta que o Sol. Além disso, sabemos que a vida pode existir em torno das estrelas G, já que este é o caso da vida na Terra. “Qualquer civilização tecnologicamente avançada que resida na zona habitável de uma estrela G enfrentará um grave perigo”, diz Gartz, referindo-se ao processo de morte da estrela. “Se a civilização não tomar nenhuma ação, enfrentará a extinção”.

Existem duas alternativas para a ameaça, segundo o artigo - migrar para longe da estrela-mãe e colonizar outro sistema estelar, ou encontrar uma solução viável dentro do próprio sistema estelar. Acontece que a migração interestelar é algo praticamente impossível. Com a nossa tecnologia, por exemplo, levaríamos várias gerações para transportar algumas poucas pessoas a um planeta que orbita outra estrela. Ainda que isso seja possível daqui a alguns milhões de anos, não é a melhor aposta.

O autor do artigo afirma que “a migração de uma população biológica inteira ou mesmo de uma pequena parte da população é praticamente impossível”. Mesmo que seja viável, ainda será muito mais difícil do que permanecer no sistema estelar no qual já se vive e tentar resolver o problema da sobrevivência ali mesmo. “Isso leva à conclusão de que sub-gigantes, gigantes vermelhas, nebulosas planetárias e anãs brancas são os melhores alvos candidatos possíveis para as observações do SETI [um projeto cofundado por Carl Sagan que tem por objetivo a constante busca por vida inteligente no espaço]”.

Anãs brancas atualmente representam 15% de todas as estrelas do universo. Considerando que o Sol se tornará uma delas, isso significa que algumas dessas numerosas anãs brancas espalhadas pelo cosmos podem hospedar planetas com condições semelhantes à Terra. Só que as varreduras do SETI não tiveram as anãs brancas como alvo até muito recentemente, e é isso o que o autor do artigo quer mudar.

Também podemos detectar os sinais de vida se algum desses planetas tiver algo estranho. Por exemplo, uma civilização avançada que planeja se prevenir da morte de sua estrela pode construir uma esfera Dyson - uma megaestrutura hipotética que orbitaria uma estrela para capturar e armazenar sua energia emitida - ou outros grandes projetos de engenharia para se protegerem durante o estágio da nebulosa planetária.

Embora a morte estelar seja um destino sombrio, esse cenário pode representar para os pesquisadores de hoje uma possibilidade de encontrar sinais de vida, ao estudar as anãs brancas. Será esta a peça que falta no quebra-cabeças para encontrarmos vida alienígena e, finalmente, podermos dizer que não estamos sozinhos no universo?

FONTE: Space.com via canaltech.com.br

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