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Precisamos falar sobre a vida alienígena como não a conhecemos


Estamos vivos, mas não sabemos o que isso significa. Sem uma teoria biológica geral, as agências espaciais caçam mundos como a Terra e buscam somente organismos aos moldes terrestres

O telescópio espacial Kepler chegava ao espaço em 2009. Até então, pouco se sabia sobre os chamados planetas extrassolares – aqueles que orbitam outros sóis. Voltando apenas duas décadas, o número de exoplanetas conhecidos se resumia a um redondo zero. Seriam eles abundantes em nosso Universo? Quantos estariam na zona habitável, onde água líquida pode existir na superfície e sustentar vida como a conhecemos?

Foi para responder perguntas como essas que a Nasa investiu US$ 550 milhões na construção do equipamento responsável por caçar planetas distantes que estão em trânsito - fenômeno observado em maio com a passagem de Mercúrio em frente ao Sol. Coincidência ou não, um dia depois do evento raro, a agência anunciou a confirmação do maior “lote” de exoplanetas até o momento, 1.284. Destes, apenas nove são rochosos e ficam na zona habitável, podendo abrigar vida como a terrestre, à base de água e carbono. Mas se biologias exóticas também fossem levadas em consideração, o número de candidatos poderia ser bem maior.



Acontece que as agências espaciais e grande parte da comunidade científica não têm muito interesse em vasculhar o cosmos à procura de vida como não a conhecemos. Não há nada de errado em tomar a Terra como exemplo na busca por vida alienígena. Afinal, até agora, é o único lugar onde se sabe que a biologia prosperou e onde ela pode ser estudada em detalhes.

“A grande questão é que, se apenas procurarmos por vida como a conhecemos, isso é tudo o que vamos encontrar”, afirma Pabulo Rampelotto, astrobiólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em outras palavras, buscamos apenas por nós mesmos no espaço – o que não deixa de ser um gesto narcisista e geocêntrico. “Para mim, essa é uma visão extremamente limitada.” Só que conseguir achar organismos como os terrestres em outros mundos já é um imenso desafio. Como procurar, então, por algo ainda mais abstrato?

Quem é vivo sempre aparece
A área multidisciplinar que investiga o fenômeno da vida e tenta contextualizá-lo de maneira mais ampla é a astrobiologia. O objetivo não se restringe a encontrar criaturas fora da Terra, mas sim a compreender como a vida surge e evolui em situações distintas, trabalhando com nada menos que as principais perguntas existenciais que há milênios atormentam a humanidade.

Achar seres alienígenas é, com certeza, o maior sonho dos astrobiólogos, pois permitiria estudos comparativos com a vida terrestre: um único micróbio extraterrestre bastaria para “desprovincializar a biologia”, como disse o astrônomo Carl Sagan. Ou então, nas palavras de Rampelotto, seria a prova de que “a biologia é uma lei universal, como a física e a química”.

Pesquisas sobre exoplanetas como as do telescópio Kepler estão entre as mais importantes para a astrobiologia, só que nesta linha é mais complicado trabalhar com o conceito de vida como não a conhecemos. Como nossa tecnologia ainda não permite enviar sondas até outros sistemas solares, o que se pode fazer é pouco mais que determinar os gases presentes nas atmosferas destes planetas distantes, por meio da análise da luz que passa por eles e chega até nós. Alguns gases como o ozônio ou o oxigênio até indicariam alguma atividade biológica, mas também podem surgir de processos naturais.

Esta ambiguidade é apenas um dos reflexos de uma questão maior: não há consenso na comunidade científica sobre o que é a vida. Sem uma teoria geral, fica muito difícil saber como procurar por ela no espaço. O problema é que, talvez, essa compreensão mais profunda só surja a partir dos estudos comparativos entre organismos terrestres e alienígenas. Se for assim, estamos fadados a tatear no escuro.

“Em vez de procurar sinais biológicos específicos que apareceram tarde na história da Terra, as missões deveriam se concentrar em características gerais e sinais de vida independentes do material que a constitui”, diz Rampelotto. Uma destas características seria o ambiente estar fora de equilíbrio: um exemplo disso é a abundância de oxigênio em nosso planeta que, não fossem os organismos, teria sido esgotado por reações químicas.

No artigo “A química da vida como nós não conhecemos”, publicado na revista Química Nova, o astrobiólogo descreve uma série de bioquímicas alternativas que poderiam dar origem a criaturas exóticas. O carbono é extremamente versátil e gera uma grande complexidade de elementos químicos, por isso se tornou a espinha dorsal dos organismos terrestres, sendo a base do DNA e dos aminoácidos. Mas, em um ambiente livre de oxigênio e com metano em estado líquido, por exemplo, o silício poderia desempenhar o papel do carbono. Na atmosfera de Vênus, o ácido sulfúrico seria capaz de substituir a água. Outro requisito para a vida, além de moléculas complexas e um solvente, é o acesso a uma fonte de energia que, no caso da Terra, é principalmente o Sol. Em lugares mais afastados, ela pode ser obtida de vulcões ou a partir da quebra de certos elementos.





Encarar a biologia como um resultado das condições físicas e químicas de seu mundo torna as possibilidades infinitas. “Se adaptarmos estes conceitos aos métodos e instrumentos que usamos para detectar vida, estaremos aumentando significativamente as chances de reconhecer um ser vivo”, afirma o astrobiólogo. A linha que estuda essas questões é chamada de química pré-biótica, outro pilar da astrobiologia moderna. Análises com essa abordagem, mais focada na origem da vida, são conduzidas a partir de experimentos em laboratório que simulam diferentes ambientes planetários e até criam células artificiais. Mas o oásis das pesquisas, obviamente, está lá fora.

Mundos novos, vida nova
É aqui que as sondas espaciais desempenham um papel fundamental: além de poderem procurar diretamente por organismos, instrumentos como microscópios são capazes de testar teorias em outros mundos e coletar dados para aprimorá-las ainda mais. “A detecção de vida como meta de missões planetárias vem ganhando força, o nível de interesse jamais esteve tão alto”, diz Chris McKay, astrobiólogo do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, e um dos principais nomes da área.

O pesquisador afirma que a falta de bons instrumentos e de um alvo claro resultaram em um desinteresse da agência em investigações sobre o assunto, que só foram retomadas no fim dos anos 1990. Ele destaca também o fracasso do experimento biológico da sonda Viking, que pousou em Marte em 1976, como um dos principais fatores.

“O sistema das sondas injetou uma solução no solo para tentar medir metabolismo procurando detectar metano, que é produzido pela respiração de micro-organismos”, explica Douglas Galante, do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia da USP, relembrando a visita da sonda ao planeta vermelho. Para a surpresa de todos, o resultado deu positivo, mas logo se descobriu ser um falso positivo: o metano era gerado por reações químicas do próprio solo. “Todas as missões posteriores foram feitas para produzir uma boa caracterização físico-química do ambiente e só depois seguir para as moléculas”, afirma Galante.

Marte é o queridinho do time da “vida como a conhecemos” justamente por ser tão parecido com a Terra – se estiver ali, ela certamente será à base de água e carbono. Por isso, não aumentaria tanto assim nosso entendimento em termos de variabilidade. Inclusive, ambas podem ser da mesma árvore, ou seja, serem a mesma vida.



Existe até uma chance palpável de que nós sejamos marcianos. Há evidências de que, 4 bilhões de anos atrás, impactos colossais de asteroides nos dois mundos fizeram com que pedaços de um fossem parar no outro. É a hipótese da panspermia: em um destes meteoritos, um micro-organismo ultrarresistente pode muito bem ter sobrevivido à viagem e se adaptado ao novo lar. São os chamados extremófilos (veja o box). Esses seres vivem em ambientes hostis como o deserto do Atacama ou lagos na Antártica e o estudo deles é fundamental para que a astrobiologia defina os limites da vida.

Em Marte as coisas soam um pouco familiares, mas no reino dos planetas gasosos, elas se tornam bem mais imprevisíveis. “Se nos aventurarmos mais para fora, precisamos ter em mente que a bioquímica da vida lá deve ser um tanto diferente”, diz Dirk Schulze-Makuch, astrobiólogo da Universidade do Estado de Washington.

A maior lua de Saturno está entre os destinos preferidos do pessoal da “vida como não a conhecemos”. É um mundo fascinante: com diâmetro maior que o de Mercúrio, Titã é o único corpo celeste conhecido com líquidos na superfície além da Terra. Mas não é a água que forma seus grandes lagos – são os hidrocarbonetos. O principal componente é o metano, protagonista de um ciclo hidrológico que inclui chuva e neve.

A espessa atmosfera é rica em compostos orgânicos, o que torna possível vida à base de carbono. Mas, ainda assim, é bem provável que ela fosse diferente da terrestre: incluir o silício nas moléculas, por exemplo, ajudaria a lidar com as baixíssimas temperaturas de lá, que ficam em torno dos 180 graus Celsius negativos.





Cientistas descobriram algo misterioso ocorrendo naquele mundo, que pode muito bem ser um indício de seres vivos: a quantidade de hidrogênio e acetileno na superfície é menor do que o esperado. “Se existe uma causa não-biológica para esta anomalia, ela ainda não foi identificada”, afirma Lucy Norman, astrobióloga da Universidade de Hong Kong especializada nesta lua.

A única maneira de descobrir seria pelo envio de uma nova sonda, de preferência uma que também operasse como submarino. Em 2005, durante uma missão conjunta entre a Nasa e a Agência Espacial Europeia (ESA) que levou a sonda Cassini até o sistema de Saturno, o módulo Huygens se tornou o primeiro a fazer um pouso suave na lua e mandou dados durante algumas horas. Mas não houve nenhum experimento astrobiológico. A meta das duas agências é lançar, até 2025, uma missão para Europa, a lua de Júpiter que contém um oceano de água salgada abaixo da superfície e, possivelmente, vida. Titã seria a próxima da lista.

O segundo gênesis
Como a vida ali seria completamente diferente da que conhecemos e missões do gênero são muito caras, as agências espaciais não investem neste tipo de pesquisa. É muito arriscado. A falta de financiamento é um dos fatores que afastam cientistas mais conservadores de estudos da vida como não a conhecemos. Lucy Norman faz parte da minoria de pesquisadores ousados que se dedicam a entender o desconhecido e expandir nossa concepção de vida. Assim como muitos de seus colegas, ela compreende o cenário desfavorável e sabe lidar com a situação. “Entendo que vivemos em uma era movida a resultados.”

Enquanto a possibilidade de vida exótica não for levada mais à sério pela comunidade científica, talvez nunca encontremos aquilo a que os especialistas dão o nome de segundo gênesis – uma outra origem da vida. Por mais esquisito que possa parecer, formas de vida desconhecida podem existir aqui mesmo, na Terra, e a ciência seria incapaz de detectá-las. É a hipótese da biosfera oculta, descrita pela astrobióloga e filósofa Carol Cleland, da Universidade do Colorado em Boulder.

Considerando que estudamos apenas cerca de 1% das espécies de micro-organismos do planeta, é possível que alguma delas seja exótica e tenha surgido a partir de circunstâncias diferentes da nossa.

A formação em filosofia dá a Cleland um ponto de vista privilegiado, em termos intelectuais. “Filósofos fazem perguntas que um cientista, incorporado em uma tradição científica particular, pode não pensar”, diz. Talvez, a visão mais ampla dos filósofos aplicada à ciência seja o que falta para podermos responder, de uma vez por todas, a pergunta que tanto nos atormenta – estamos sós no Universo? É justamente esta abertura de ideias que o astrobiólogo Pabulo Rampelotto defende. “Para procurar vida em outros planetas, devemos estar preparados para reconhecer vida como nós não conhecemos.”

Pois, afinal, é bem provável que ela esteja lá fora agora mesmo, pronta para ser detectada, em algum planeta ou lua do Sistema Solar. Ou então, em um dos 1.284 mundos que o telescópio Kepler revelou.

FONTE: REVISTA GALILEU

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