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Sistemas planetários com dois mundos habitáveis devem ser comuns


Se um sistema planetário com um mundo habitável é bom para a vida, imagine com mais de um! (Crédito: Nasa)

POR SALVADOR NOGUEIRA
03/12/15 06:00

O Sistema Solar parece ser um lugar particularmente favorável à vida, com a Terra na posição certa para permitir a presença de água em estado líquido e viabilizar nossa incrível biosfera. Não dá para ficar melhor que isso, certo? Errado. Um novo estudo mostra que não só pode, como deve haver outros sistemas planetários ainda melhores para a vida que o nosso — com dois planetas vizinhos capazes de abrigar uma biosfera e trocando “figurinhas” entre si o tempo todo.

O trabalho foi liderado pelo astrofísico Jason Steffen, da Universidade de Nevada em Las Vegas, que acaba de apresentá-lo na 3a Reunião de Sistemas Solares Extremos, realizada pela Sociedade Astronômica Americana, no Havaí.

Steffen se inspira nos resultados obtidos pelo satélite Kepler, da Nasa, que passou quase quatro anos ininterruptos monitorando cerca de 150 mil estrelas de um pequeno pedaço de céu, a fim de fazer um censo estatístico da prevalência de planetas na galáxia. O Kepler só podia ver uma pequena parte do céu, limitar-se apenas a estrelas relativamente próximas e detectar somente sistemas planetários que estivessem de tal modo alinhados que os planetas passassem periodicamente à frente de suas estrelas. Isso, na prática, significa que ele viu uma fração bem pequena do que há lá fora. Mas o número de detecções é suficientemente grande para permitir tratá-lo como uma amostra sem viéses do que deve haver lá fora, em toda parte.

Uma das descobertas surpreendentes do Kepler é que há muitos sistemas que se dispõem de maneira compacta, ou seja, suas órbitas estão bem menos espaçadas que as do Sistema Solar. Na prática, isso significa que em torno de muitas das estrelas da Via Láctea podem orbitar dois planetas ou até três muito próximos um do outro, todos dentro da zona habitável (a faixa do sistema que oferece nível de radiação ideal para a manutenção de água em estado líquido na superfície de um planeta).

(Aliás, até mesmo aqui no Sistema Solar, usando as definições mais otimistas de zona habitável, teríamos nela dois planetas — Marte seria ainda hoje um mundo habitável, fosse um pouco maior e capaz de reter uma atmosfera densa o suficiente para tornar a água estável na superfície.)

Contudo, não basta ser do tamanho certo e estar no lugar certo do sistema planetário para se tornar amigável à vida. Também é preciso ter um certo nível de estabilidade climática. E, para isso, é importante que o eixo de rotação do planeta não varie muito.

No caso da Terra, nosso eixo está inclinado em 23,5 graus com relação ao plano da órbita do planeta em torno do Sol, e é isso que produz as estações do ano — num lado da órbita bate mais luz solar no hemisfério Norte, e é verão por lá, e no outro lado bate mais luz solar no Sul, e aí o verão é por aqui.

Influências gravitacionais de planetas vizinhos, como Vênus, Marte ou Júpiter, poderiam em tese perturbar o eixo terrestre, não houvesse a nossa Lua para ajudar a manter as coisas como estão. Certo, e se não tivéssemos Lua? A questão ainda é controversa, mas estudos recentes sugerem que, sem o satélite natural, a Terra sofreria sim mudanças na inclinação do eixo pela influência dos outros planetas, mas tão lentas, na escala de bilhões de anos, que não seriam impeditivas ao progresso da vida.

Agora, imagine o que aconteceria se estivéssemos num sistema compacto, e Marte estivesse a um quinto da distância que está. E ainda por cima que ele tivesse a mesma massa da Terra, ou maior. Bem, foi isso que Steffen e seu colega Gongjie Li, do Centro Harvard-Smithsoniano para Astrofísica, se puseram a fazer: realizaram simulações de computador para medir o impacto gravitacional de planetas em órbitas próximas sobre o seu eixo de rotação.

“Descobrimos que as obliquidades dos planetas em sistemas multi-habitáveis não eram realmente afetadas por suas órbitas próximas”, disse Li. “Apenas em raras instâncias seus climas seriam alterados de forma dramática. De resto, seu comportamento era similar ao dos planetas no Sistema Solar.”

Isso é uma boa notícia. Mas fica ainda melhor.

VIDA QUE SEGUE
Sabemos que planetas num mesmo sistema trocam figurinhas, por assim dizer. Quando um asteroide colide com um deles, o impacto leva à ejeção de material da superfície, que vaga pelo espaço e acaba, por fim, caindo num planeta vizinho. Foi assim que o famoso meteorito ALH 84001, vindo de Marte, foi parar na Antártida, após uma jornada de milhões de anos pelo espaço.

Estudos nos últimos 15 anos têm mostrado que, apesar da alta energia envolvida no impacto que ejeta esse material para o espaço, o ambiente no interior da rocha permanece mais ou menos estável na partida, na viagem interplanetária e na entrada atmosférica em seu mundo de destino. Em outras palavras, essas rochas seriam eficientes no transporte de micróbios de um planeta a outro.

Essa hipótese é conhecida como panspermia e nada impede que tenha acontecido no passado aqui mesmo no Sistema Solar. (Não será uma surpresa completa se um dia descobrirmos vida em Marte e percebermos que ela é uma parente distante de nós mesmos. O difícil aí será saber se nós somos descendentes de marcianos que colonizaram a Terra, ou se eles é que são descendentes de terráqueos que proliferaram em Marte.)

Agora, o que Steffen e Li mostraram em seu estudo é que, em sistemas planetários mais compactos, esse transporte de material de um planeta a outro é muito mais abundante e eficiente. Não só uma quantidade maior de rochas de um mundo incidiria sobre o outro após uma colisão de asteroide, mas também o tempo médio de viagem no meio interplanetário cairia de milhões para milhares de anos. (Milhões de anos não são problema para bactérias em estado de hibernação, mas tudo fica ainda mais fácil se a viagem for “só” de milhares de anos.)

Em suma: não há malefícios significativos de se estar num sistema compacto com dois planetas na zona habitável, mas há benefícios importantes. Com a vida evoluindo em paralelo em dois planetas vizinhos, e a troca constante de material entre eles, a tendência geral é de aumento da biodiversidade. Teríamos mundos potencialmente mais ricos em vida do que a Terra.

Artigo de Steffen e Li sobre o tema foi aceito para publicação no “Astrophysical Journal” e pode ser encontrado aqui.



FONTE: http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br/

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