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Martelo e foicebook: União Soviética queria construir a própria internet

(JOSEF STALIN. LÍDER DO PAÍS ENTRE 1922 E 1953, NÃO ERA GRANDE ENTUSIASTA DA TECNOLOGIA | ILUSTRAÇÃO: YUMI SHIMADA)

Conceitos como os de computação em nuvem e pagamentos virtuais foram introduzidos pela antiga URSS

Na praça vermelha, em moscou, a bandeira da foice cruzada com o martelo era exibida pela última vez em 31 de dezembro de 1991.

Para a perplexidade dos Partidos Comunistas de diferentes partes do mundo, a crise econômica e a insatisfação popular implodiam a União Soviética, primeira nação a construir um modelo econômico e social alternativo ao capitalismo. Essa história, no entanto, poderia tomar um caminho diferente caso a liderança socialista prestasse atenção nas ideias do cientista Victor Glushkov: especialista nos estudos pioneiros da cibernética, ele projetou uma rede de informações capaz de conectar, em tempo real, toda a União Soviética, o que poderia resolver questões fundamentais para o planejamento econômico do país.

Glushkov também introduziu conceitos como os de computação em nuvem e pagamentos virtuais, ideias colocadas em prática décadas depois. “Se os norte-americanos estavam desenvolvendo a internet, por que os soviéticos não fariam o mesmo?”, diz Benjamin Peters, pesquisador norte-americano que escreveu o livro How Not to Network a Nation ("Como Não Conectar uma Nação", ainda sem versão em português), lançado neste ano e que explica por que a burocracia do Estado soviético e as disputas políticas impediram versões marxistas de Bill Gates ou, quem sabe, de um Facebook apenas para socialistas...

Sabe a polarização entre coxinhas e petralhas e todas as desavenças políticas com amigos e familiares? Isso é fichinha se comparado à rivalidade entre União Soviética e Estados Unidos, que dividiu o planeta em duas esferas de poder de 1945 até a dissolução do país socialista, em 1991. Aliados temporários na luta contra o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, os países tinham uma diferença ideológica irreconciliável — não seria lá muito fácil a convivência entre a maior potência capitalista do mundo e um Estado inspirado no pensamento marxista, que colocava justamente a superação do capitalismo como condição básica para o desenvolvimento da humanidade.

As críticas de Stalin não tinham a ver com a cibernética em si. Mas como esses estudos começaram nos Estados Unidos

Em uma disputa pela supremacia econômica e militar, o desenvolvimento de pesquisas científicas nas duas regiões foi responsável por avanços tecnológicos que marcaram a história (veja o box abaixo), como o lançamento de satélites e a conquista do espaço. Além, é claro, da criação de máquinas responsáveis por realizar milhares de cálculos por segundo, que poderiam analisar a trajetória de um míssil nuclear ou revolucionar a maneira pela qual os seres humanos se relacionam com a tecnologia.

É bem verdade que Josef Stalin, líder soviético entre 1922 e 1953, não era um dos maiores entusiastas das pesquisas que estudavam as interações entre homem e máquina e a construção de redes de informação que fluíam em tempo real. “As críticas de Stalin não tinham a ver com a cibernética em si. Mas como esses estudos começaram nos Estados Unidos, isso fazia parte de uma campanha contra os norte-americanos e suas ciências”, afirma Benjamin Peters em entrevista à GALILEU.

O interesse em escrever sobre as tentativas de desenvolver o embrião da internet em território soviético surgiu em 2007, quando Peters fazia seu trabalho de doutorado pela Universidade Columbia e encontrou um documento da CIA, a agência de inteligência norte-americana. “O informe era de 1962 e falava sobre uma rede unificada de informações em que os soviéticos estavam trabalhando”, diz Peters.

Após a morte de Stalin, em 1953, o núcleo do governo socialista concentrou esforços em afastar o fantasma do ex--líder soviético — em 1956, Nikita Kruschev, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, fez um discurso “secreto” em que denunciava as perseguições e os crimes políticos cometidos por Stalin. Em uma época de reformas econômicas e políticas, a construção de redes de informação por meio de computadores ganhou o apoio soviético com a criação do Instituto de Cibernética na cidade ucraniana de Kiev, em 1957.

Nascido em uma família de engenheiros (sua mãe morreu em combate durante a resistência às tropas nazistas, em 1941) e considerado um matemático brilhante, Victor Mikhailovich Glushkov foi nomeado pelas lideranças científicas da União Soviética o responsável por chefiar o instituto. “Ele citava de cor parágrafos inteiros dos livros de Karl Marx quando debatia com os ideólogos do Partido Comunista”, conta Peters.

Em 1962, Glushkov iniciaria seu trabalho mais ambicioso: batizado de Sistema Estatal de Gerenciamento Automatizado (Ogas, ou, se preferirem, Obsche-fosudarstvenny Avtomatizirovannaya System), o projeto tinha como objetivo construir uma rede para conectar todas as indústrias da União Soviética, enviando informações para um sistema central que processaria os dados e analisaria como os recursos seriam distribuídos com maior eficiência pelo Estado.

O cientista acreditava que uma rede conectada possibilitaria acesso remoto a informações em tempo real, permitindo que os trabalhadores soubessem o que acontecia em outras fábricas e melhorando as decisões do planejamento governamental, já que os dados seriam transmitidos instantaneamente e sem burocracia. Apesar de parecerem simples, esses conceitos só seriam colocados em prática décadas depois, e inspirariam tecnologias como a computação em nuvem e até o pagamento eletrônico. “Glushkov propôs um sistema eletrônico para que a moeda tivesse um registro em uma conta virtual”, afirma Peters.

O Ogas não despertou o interesse soviético até 1969, quando os Estados Unidos lançaram a Arpanet, rede de computadores que ligava os centros militares e posteriormente conectaria institutos de pesquisa e universidades, sendo considerada o embrião da internet atual. Em
1º de outubro de 1970, Glushkov foi convidado a participar de uma reunião em Moscou com Leonid Brejnev, secretário-geral do Partido Comunista.

O episódio, que poderia marcar o início de uma revolução tecnológica, foi frustrante: o líder soviético perdeu o encontro para participar de outro compromisso e os ministros presentes estavam mais interessados em defender a burocracia do que apoiar um projeto para otimizar as estruturas estatais.

“Glushkov enfrentou obstáculos de pessoas da máquina administrativa preocupadas com interesses próprios”, destaca Peters. Oficialmente, os altos custos para implantar o Ogas impediram a continuidade do projeto — Glushkov estipulava a necessidade da contratação de 3 mil trabalhadores especializados, ao custo de 100 bilhões de rublos, ou US$ 800 bilhões em valores atuais. “Com exceção dos gastos militares e do desenvolvimento de armas nucleares, o investimento científico sofria de acordo com o humor do governo”, afirma Roberto Lopes, da Universidade Federal do Pará, pesquisador dos sistemas de informação da era soviética.

Com a chegada de Mikhail Gorbachev ao poder, em 1985, mudanças na estrutura do Estado começaram a acontecer, mas a crise no núcleo da economia era grande demais para ser estancada. “A União Soviética teve dificuldades em se adaptar aos fluxos mais horizontais de informação e comando que surgiram na década de 1970”, diz o historiador Angelo Segrillo, autor do livro O Declínio da União Soviética: Um Estudo das Causas.

O pesquisador, que viveu os últimos anos da era soviética, afirma que o ardor revolucionário deu lugar à resignação burocrática, acumulando problemas sociais: “É como uma panela de pressão que explode em pouco tempo”. Para Peters, o controle exercido pelo governo soviético e os interesses pessoais que impediram o desenvolvimento de uma internet local servem como lições para a atualidade. “Vemos casos em que o Estado utiliza redes de computadores para seus interesses pessoais, como os episódios de espionagem da NSA”, diz. O controle de informações, afinal, não é exclusividade dos camaradas soviéticos.

O EMBRIÃO DA INTERNET QUASE FOI SOVIÉTICO


NIKITA KRUSCHEV (ESQUERDA), LÍDER SOVIÉTICO ENTRE 1953 E 1964, E LEONID BREJNEV (DIREITA), QUE COMANDOU A UNIÃO SOVIÉTICA DE 1964 A 1982 (ILUSTRAÇÃO: YUMI SHIMADA)

Guerra na ciência

1946
Cientistas norte-americanos desenvolvem o Eniac, primeiro computador digital eletrônico do mundo

1951
Fabricado na União Soviética, o MESM era utilizado para resolver cálculos matemáticos e de estatística

1953
Os soviéticos testam a bomba de hidrogênio, mais destrutiva do que as armas nucleares convencionais

1957
O Sputnik é o primeiro satélite artificial lançado da Terra e coloca a União Soviética na liderança da corrida espacial

1958
Em resposta ao Sputnik, os norte-americanos criam a Nasa, agência espacial que transportaria o homem até a Lua

1969
Utilizada inicialmente para fins militares, a Arpanet conecta institutos de pesquisa norte-americanos e é o embrião da internet

1983
Estados Unidos lançam o projeto Guerra nas Estrelas, sistema de defesa espacial contra um eventual ataque nuclear

Guerra na política

1950
O senador Joseph McCarthy lança uma “caça às bruxas” contra a suposta infiltração comunista nos Estados Unidos

1961
Começa a construção do muro que dividiria a cidade alemã de Berlim em dois lados, o capitalista e o socialista

1962
O mundo fica à beira da guerra nuclear depois da descoberta de uma base de mísseis em Cuba

1973
Com suporte norte-americano, militares chilenos dão um golpe no país: Salvador Allende, presidente socialista eleito, comete suicídio

1975
Apoiado pela União Soviética, o Vietnã obriga os Estados Unidos a retirar suas tropas do país após uma guerra que durou 20 anos

1980
Em resposta à invasão soviética no Afeganistão, os Estados Unidos promovem boicote aos Jogos Olímpicos de Moscou

1991 - O fim
Crise econômica e social acelera a insatisfação popular e o processo de independência dos países ligados à União Soviética


ENTERPRISE CHILENA
Projeto cibernético do governo socialista foi pioneiro na América Latina

Cadeiras giratórias com almofadas vermelhas dispostas em um círculo permitiam observar telas de diferentes tamanhos que exibiam informações sobre economia. Com jeito de cenário do seriado Jornada nas Estrelas, esse centro de operações fazia parte do Cybersyn, projeto chileno desenvolvido durante os primeiros anos da década de 1970 e primeira tentativa latino-americana de criar uma rede capaz de transmitir informações em tempo real — dados sobre as fábricas do Chile seriam fornecidos à sala de operações a partir de uma central de computadores.

Idealizado pelo engenheiro chileno Fernando Flores e pelo britânico Stafford Beer, especialista em cibernética, o Cybersyn ganhou o apoio do presidente Salvador Allende, eleito no final de 1970 pelo Partido Socialista. Com uma plataforma baseada na superação do capitalismo por meio da nacionalização dos recursos e da construção do poder dos trabalhadores, o governo de Allende acreditava que a tecnologia potencializaria o planejamento econômico e a eficiência para distribuir investimentos. Após o golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet, que levou ao suicídio de Allende, em 11 de setembro de 1973, o Cybersyn foi cancelado e o centro de operações, destruído.

FONTE: REVISTA GALILEU

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