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Teoria de “fração do tempo” sugere que não somos tão conscientes quanto pensávamos



Nossa percepção consciente do mundo parece como um fluxo contínuo e ininterrupto, mas um novo estudo sugere que ela é mais parecida com quadros de um rolo de filme rodando em um projetor.

Ainda não sabemos muitas coisas sobre a consciência e como ela se forma no cérebro. Mesmo que a percepção – como visão e audição – pareça suave e ininterrupta, neurocientistas não têm certeza de que ela flui continuamente como a água que sai de uma torneira ou se é mais como um rolo de filmes com 24 quadros por segundo.

Uma equipe de pesquisadores europeus defende que é mais próximo do segundo caso – mas com uma mudança. O novo framework conceitual deles, publicado no PLOS Biology, sugere que inicialmente processamos informações sensoriais recebidas em um estado inconsciente, que então se desloca para a consciência perceptual completa.


O modelo de percepção visual em dois passos. Imagem: Michael H. Herzog/PLOS Biology

O novo modelo, desenvolvido por Michael Herzog do Escola Politécnica Federal de Lausana, na Suíça, e por Franck Scharnowski, da Universidade de Zurique, também na Suíça, propôs um processamento de informação sensorial em dois passos. Durante a primeira fase, o cérebro processa características específicas de um objeto, como sua cor ou forma. Essa varredura é feita semi-continuamente, mas nós humanos não percebemos que isso acontece. Durante a primeira fase, mesmo mudanças no objeto (como alteração na cor ou brilho) não são conscientemente percebidas.

Mas depois vem o segundo estágio: a transferência dos estímulos para a percepção consciente de verdade. Durante essa fase o cérebro renderiza as características percebidas depois que o processamento inconsciente é completado. Experienciamos tudo isso como experiência consciente subjetiva decorrente da percepção sensorial. É como aquele momento que um filme polaroid revela seus detalhes escondidos e finalmente percebemos para o que estamos olhando – exceto que esse processo é tão rápido que não sabemos que existe essa fase de “desenvolvimento”.

“Quando o processamento inconsciente está ‘completo'”, dizem os pesquisadores, “todas as características são renderizadas conscientemente em momentos distintos no tempo, às vezes até centenas de milissegundos após os estímulos serem apresentados.”

Isso significa que há um atraso entre quando experienciamos inicialmente uma coisa até quando percebemos isso. (Isso talvez ajude a explicar a “ilusão flash-lag”). Todo esse processo em duas etapas, do início ao fim, pode durar até 400 milissegundos – o que é bastante tempo na perspectiva psicológica.

“O motivo é que o cérebro quer dar a melhor e mais clara informação possível, e isso demanda uma quantidade significativa de tempo,” explicou Herzog em um comunicado. “Não há vantagem em fazer você perceber o processamento inconsciente, porque isso seria imensamente confuso.”

O modelo de Herzog e Scharnowski sugere que não temos tanta consciência quanto pensamos ter. Se estiverem certos, significa que estamos inconscientes durante uma parte significativa da nossa vida acordada. Mas como os buracos entre os slides de filmes, não temos consciência desses “apagões”.

A implicação é que não há nada de um ser contínuo e imutável, nem uma alma sempre presente. Em vez disso, nosso cérebro constantemente produz fotos instantâneas de percepção, que para nós parecem reais e consistentes. Combinado com outros aspectos da cognição (como memória), isso dá origem à auto-consciência e a impressão de que vivemos em um universo coerente.

Este novo modelo só considera processamento visual. Algo completamente diferente pode acontecer no cérebro enquanto ele processa outras informações, como audição, tato ou olfato. Dito isso, a pesquisa oferece uma imagem mais completa do funcionamento do cérebro do que a apresentada por defensores da visão simplista da consciência humana “contínua ou discreta.”

[PLOS Biology]

FONTE: GIZMODO BRASIL

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