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Brasileira que revolucionou o entendimento sobre buracos negros é premiada


Thaisa Bergmann foi a primeira pessoa a observar um disco de acreção no centro de uma galáxia inativa e receberá uma bolsa de US$ 100 mil pelo conjunto do seu trabalho

A astrofísica brasileira Thaisa Bergmann, enquanto estava tentando decidir sua carreira, ouviu do pai: “mulher precisa escolher uma profissão em que dê para trabalhar só meio turno”. Não era falta de confiança nas habilidades da filha - ele inclusive ajudou a montar um laboratório de ciências no sótão de casa, em Caxias do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, quando Thaisa começou a demonstrar interesse no assunto aos 10 anos. Era só o reflexo do pensamento corrente na época. “Ele tinha um pouco de preconceito e não entendia bem qual era o objetivo do que eu queria fazer. Mas eu era daquelas meninas invocadas, depois disso é que não ia trabalhar meio período mesmo”, ela diz.

Hoje professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Thaisa foi escolhida pela Unesco e pela Fundação L’Oréal para representar a América Latina no prêmio For Women in Science, que oferece uma bolsa de US$ 100 mil a cinco cientistas, uma de cada continente, que se destacaram pelo conjunto da obra.

A brasileira ficou conhecida por sua pesquisa na área dos buracos negros supermassivos - enquanto um buraco negro comum tem cerca de dez vezes a massa do Sol, os supermassivos podem ter bilhões de massas solares. Só é possível observar buracos negros pela matéria que eles engolem: quando uma estrela é sugada, ela libera radiação que pode ser vista da Terra. Nas galáxias ativas, o núcleo do buraco emite muito brilho, e por isso é fácil perceber a presença dele. “Quando comecei a minha tese de doutorado, no final dos anos 80, ainda se acreditava que só as galáxias tinham buracos negros no centro”, ela explica.

Quando o telescópio Hubble foi lançado, em 1990, Thaisa passou a acompanhar as informações obtidas por ele até que descobriu algo inesperado: um disco de acreção (disco de gás que se aquece quando a matéria é engolida pelo buraco negro) em uma galáxia inativa. “Foi uma observação importante porque aconteceu quando ainda não tínhamos certeza de que existiam buracos negros em todas as galáxias”, ela explica. “Quando o raio de captura é pequeno, é possível orbitar o buraco negro, e é isso que acontece na maior parte das galáxias.”

A descoberta obviamente teve grande repercussão, e até hoje Thaisa está entre os brasileiros mais citados em artigos científicos do mundo todo (a quantidade de citações é a forma mais conhecida de avaliar a influência de um pesquisador na sua área). “De primeira, até meu assistente disse que eu devia ter feito algum cálculo errado. Quando recebi a confirmação de que estava certa, fiquei muito emocionada. À noite, antes de dormir, dizia para o meu marido: ‘Descobri uma coisa muito importante!’ Passei uns três dias assim”, ela conta aos risos.

Um intruso no observatório

Quando começou a graduação, nos anos 70, Thaisa era uma das poucas alunas da sua turma. Agora, como professora da mesma faculdade onde estudou, ela diz que a situação melhorou “um pouquinho, mas nada muito significativo”. Ela própria precisou lidar com alguns episódios de discriminação ao longo da carreira. O mais marcante aconteceu no final da década de 1990.

Thaisa tinha dado à luz há quatro meses quando recebeu a oportunidade de passar uma semana trabalhando em um observatório do Chile. Ela avisou que estava amamentando e pediu para levar o bebê, mas os coordenadores da pesquisa resistiram. “Disseram que uma criança poderia perturbar o siêncio, já que todo mundo precisa dormir durante o dia para fazer as observações à noite”. A brasileira bateu o pé e, no final, encontraram um “meio-termo”: ela, o filho e a babá foram alojados na parte externa, em um pequeno cômodo que tinha sido erguido para hospedar engenheiros durante a construção do observatório.

O prêmio que Thaisa vai receber em Paris na próxima quarta-feira, 18, foi criado justamente para incentivar a participação das mulheres na ciência e contribuir para que situações como essa não voltem a se repetir. Ela, que também teve sua tese de doutorado orientada por uma mulher, faz o possível para incentivar as poucas moças que se aventuram nas suas aulas. “O que procuro passar para as minhas alunas é que elas não podem desanimar, mesmo que às vezes pareça mais difícil do que é para os meninos”, afirma.

FONTE: SANTINAGO WOLNEI FERREIRA GUIMARÃES/http://revistagalileu.globo.com/

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