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De preferido de Hitler a guarda-costas de Evita Perón: o nazista que foi parar na Irlanda


Otto Skorzeny ficou famoso por ter resgatado Mussolini de seu cativeiro no topo de uma montanha

Ele era o agente favorito de Hitler, famoso por ter resgatado Mussolini do cativeiro no topo de uma montanha e descrito como "o homem mais perigoso da Europa". Depois da Segunda Guerra Mundial, foi parar na Argentina, onde foi guarda-costas de Evita Perón. Segundo rumores, os dois teriam tido um envolvimento amoroso.

Não é de causar surpresa, portanto, que quando Otto Skorzeny chegou à República da Irlanda, em 1959, após ter comprado uma chácara no Condado de Kildare, a presença do ex-major nazista causou frisson no país.
Com quase dois metros de altura e pesando 114 quilos, a face esquerda do rosto marcada por uma cicatriz, Skorzeny chamava a atenção por onde andava.
Em artigos publicados na época pela imprensa irlandesa, Skorzeny era representado de forma glamorosa, como lembra o jornalista radicado em Dublin, Kim Bielenberg.
"O tom das matérias de jornal era de admiração em vez de repulsa, ele parecia ser admirado por suas proezas militares".
Ainda assim, alguns se perguntavam por que esse "garoto propaganda" do Partido Nazista teria vindo à Irlanda, provocando debates no parlamento irlandês. O que fazia Skorzeny no país? Teria ele intenções de iniciar atividades nazistas na Irlanda?
Façanhas Militares
Nascido em Viena em 1908, Otto Skorzeny filiou-se ao Partido Nazista da Áustria no início da década de 1930. No início da guerra, lutou nas frentes do leste, participando das invasões alemãs na Iugoslávia e União Soviética.
Em abril de 1943, já era chefe das forças especiais alemãs, encarregado por uma unidade de comandos especiais da SS (tropa de elite de Hitler).
Quando Benito Mussolini, aliado de Hitler, foi deposto e aprisionado na Itália, Skorzeny foi escolhido pelo führer para liderar uma missão de resgate.
Skorzeny e seus homens usaram planadores para chegar ao hotel onde Mussolini estava preso, no topo de uma montanha em um ponto remoto da Itália. Pegos de surpresa, os guardas não conseguiram reagir. O ditador deposto foi libertado.
Feitos como esse melhoraram ainda mais a reputação de Skorzeny junto a Hitler. O oficial foi promovido a major.
Quando Mussolini foi exibido para a mídia internacional, tendo Skorzeny ao seu lado, o então primeiro ministro britânico, Winston Churchill, descreveu a missão como "de muita audácia".
Missões Impossíveis
Daí em diante, o major passou a ser encarregado de todas as operações desse tipo.
Em 1944, acompanhado por seus homens, ele capturou o filho do regente da Hungria, almirante Horthy. Tendo aprisionado Miklós Horthy Jr. ─ após uma breve troca de tiros ─ o grupo enrolou o prisioneiro em um tapete e o colocou em um avião rumo a Berlim.
A última grande missão de Skorzeny na Segunda Guerra aconteceu durante a Ofensiva de Ardennes (mais conhecida como a Batalha de Bulge), em dezembro de 1944.
Skorzeny comandou a Operação Greif, onde alemães que falavam inglês, vestidos com uniformes americanos, usaram tanques disfarçados para se infiltrar nas frentes aliadas.
O plano causou confusão e pânico entre os aliados.
Correram boatos de que os homens de Skorzeny planejavam assassinar o General Eisenhower (comandante das forças americanas durante a Segunda Guerra). Os rumores levaram a um reforço na segurança, e o general foi obrigado a ficar confinado durante a semana do Natal em seu quartel-general no Palácio de Versailles.
Dez dias após o suicídio de Hitler, em maio de 1945, Skorzeny se entregou para os americanos.
Foi julgado por crimes de guerra em Dachau, em 1947, mas o caso não se sustentou e ele foi inocentado.
No entanto, Skorzeny ainda tinha de responder a acusações feitas por outros países e continuou na prisão. Mas, para a surpresa de poucos, ele escapou com a ajuda de antigos companheiros da SS.
Foi parar em Madri, onde abriu uma empresa de importações e exportações. Embora muitos dos negócios da companhia fossem legítimos, a empresa teria servido na verdade como fachada, permitindo que ele organizasse a fuga, para a América do Sul, de nazistas procurados na Europa.
De fato, Skorzeny fez várias viagens para a Argentina, onde se encontrou com o líder do país, Juan Perón. Durante um período, foi guarda-costas da esposa de Perón, Eva (Evita). Há relatos de que ele teria impedido que ela fosse assassinada.

Admirado na Irlanda


Militar das forças especiais nazistas comprou fazenda na Irlanda

Em junho de 1957, Skorzeny viajou de Madri para a Irlanda, onde foi convidado para uma recepção em um hotel no Portmarnock Country Club, em Dublin.
O jornalista Kim Bielenberg reflete sobre a forma como o ex-oficial nazista, um criminoso de guerra foragido, foi recebido pelos irlandeses.
"Ele foi badalado pela alta sociedade de Dublin, inclusive por um jovem político, Charles Haughey, que mais tarde viria a se tornar um dos primeiros-ministros mais polêmicos da Irlanda".
"Segundo o relato do Evening Press (jornal que circulava na Irlanda naquele período), o salão estava lotado com representantes de várias sociedades, profissionais e, é claro, vários parlamentares", disse o jornalista.
Bielenberg especula que talvez essa acolhida calorosa tenha encorajado Skorzeny a comprar, em 1959, a Martinstown House, uma mansão cercada por uma fazenda de 160 acres em Curragh, Condado de Kildare.
O jornalista fala sobre a impressão que o ex-oficial alemão causou na população local.
Ele conta que Skorzeny podia ser visto dirigindo por Curragh em um Mercedes branco ou entrando no correio local para comprar mantimentos (em pequenas cidades na Irlanda e Grã-Bretanha, agências do correio funcionam dentro de pequenas mercearias).
"Reggie Darling, um historiador da região, me disse que uma vez cruzou com Skorzeny em Curragh. Ele contou que (o alemão) era um homem grande, que chamava a atenção por causa da cicatriz no rosto (resultado de um duelo nos tempos de estudante), mas não era muito amigável e não se misturava com a população local".
'Rota de fuga'
As visitas de Skorzeny à Irlanda nos anos seguintes foram cercadas de rumores e conjecturas.
Documentos do Irish National Archives, em Dublin, revelam que ele recebeu vistos temporários de entrada na Irlanda, desde que ele se comprometesse a não entrar na Grã-Bretanha.
Arquivos de Estado datando de 1958 falam de sua indignação diante de repetidas recusas, pelas autoridades britânicas, em permitir sua entrada no país.
Artigos de jornal publicados na década de 1960 diziam que Skorzeny tinha criado uma rota de fuga para ex-nazistas a partir da Espanha, e que sua fazenda na Irlanda era um lugar onde nazistas em fuga podiam se esconder. No entanto, nunca foram encontradas evidências para provar isso.
Perguntas no Parlamento
Nos anos posteriores à guerra, a Europa ainda era assombrada pelo espectro do Nazismo e havia temores de que ele retornasse como força política.
Na Irlanda, um ex-ministro da Saúde, Noel Browne, estava tão preocupado com a presença de Skorzeny no país que decidiu levantar a questão no parlamento irlandês, o Dáil, em 1959.


A concessão de residência a Otto Skorzeny foi motivo de debate na Irlanda

O ministro expressou a preocupação de que Skorzeny estivesse envolvido em "atividades antisemitas". Browne também declarou, em outra ocasião, que era do "conhecimento geral" que Skorzeny estava de alguma forma envolvido em atividades neonazistas. O político disse que o governo da Irlanda não deveria permitir que o ex-oficial alemão usasse a Irlanda para esses fins.
A presença de Skorzeny na Irlanda também foi tema de várias trocas de correspondências entre departamentos do governo irlandês ─ por exemplo, os de Justiça e de Relações Exteriores.
Em entrevistas, o ex-oficial sempre negava participação em atividades neonazistas ou de cunho político.
Dizia que queria comprar cavalos e que um dia gostaria de se aposentar e ir viver na Irlanda. Isso, no entanto, nunca aconteceu. Ele nunca obteve um visto de permanência no país. Viveu em Madri até morrer, em 1975, de câncer.
Skorzeny nunca denunciou os horrores do Nazismo e foi enterrado por seus antigos companheiros, seu caixão decorado com as cores do Nazismo.
Nazistas na Irlanda
Outros nazistas conhecidos, entre eles, Albert Folens e Helmut Clissman, foram morar na Irlanda após a Segunda Guerra Mundial.
Em entrevista à TV estatal irlandesa RTÉ em 2007, um veterano irlandês da Força Aérea britânica, Cathal O'Shannon, fez uma estimativa de que entre 100 e 200 nazistas teriam ido viver no país.
O'Shannon disse que um sentimento "antibritânico" na Irlanda teria, na opinião dele, levado irlandeses a oferecerem aos nazistas uma acolhida mais calorosa do que a que ele próprio obteve quando voltou da guerra.
O jornalista Kim Bielenberg diz que o contexto histórico oferece outras explicações para a recepção calorosa, pela Irlanda, aos nazistas.
"Não sei se a Irlanda havia se dado conta, naquela época, da gravidade, do horror das atrocidades cometidas pelos nazistas".
É possível também que irlandeses com tendências mais nacionalistas tenham adotado uma postura do tipo "o inimigo do meu inimigo é meu amigo", sugere o jornalista. "A atitude dos irlandeses em relação aos nazistas mudou a partir da década de 1970, quando o Holocausto entrou na consciência popular".
Bielenberg conta que sua história pessoal está vinculada à de Skorzeny.
"Skorzeny participou do aprisionamento e tortura de integrantes da resistência alemã que tentaram assassinar Hitler. Um desses homens era meu avô, Fritz von der Schulenburg".
"Após serem presos, Skorzeny chegou e arrancou suas insígnias militares. Depois, foram forçados a ouvir um discurso de Hitler no rádio, confirmando que ele estava vivo".
"Meu avô foi executado em Berlim, em agosto de 1944".

FONTE: http://www.bbc.co.uk/

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