
TELESCÓPIO DO SONEAR MONITORA DE OLIVEIRA (MG) ÁREA NO CÉU EQUIVALENTE A NOVE LUAS CHEIAS (FOTO: DIVULGAÇÃO)
Astrônomo amador do SONEAR encontrou o astro sem querer — novo cometa 'brasileiro' foi batizado em sua homenagem
Era só mais uma noite normal de observações à procura de pequenos corpos celestes orbitando nas redondezas da Terra quando algo inesperado aconteceu. “Observávamos um cometa recém-descoberto quando encontramos o Barros”, explica o engenheiro e astrônomo amador Cristóvão Jacques. “Foi uma descoberta meio aleatória.”
Ele se refere ao C/2018 E2 (Barros), mais novo cometa descoberto por um brasileiro, na madrugada do dia 13 de março. Foi detectado por João Ribeiro Barros, colega de Jacques e um dos membros da equipe do SONEAR — sigla em inglês do Observatório Austral para Pesquisa de Asteroides Próximos à Terra. Os dois e mais um amigo bancam todas as atividades de pesquisa com verba do próprio bolso.
Por ter sido descoberto a tão pouco tempo, há pouquíssimas informações sobre o cometa Barros. Até agora, sabe-se apenas que ele tem longo período, ou seja, leva milhares de anos para completar uma órbita. Atingiu o chamado periélio, ponto mais próximo do Sol, em 25 de novembro de 2017, quando esteve a 578 milhões de quilômetros da estrela, quase quatro vezes a distância Terra-Sol.
Os pesquisadores constataram que ele gira no sentido contrário dos planetas. Descobriram, também, que sua trajetória é extremamente inclinada em comparação com a dos planetas do Sistema Solar. Situa-se a 98 graus da órbita da Terra. A composição ainda é um mistério. “Características químicas e físicas necessitam de instrumentos específicos que façam a observação espectral”, explica Jacques.
Desbravando os céus do Sul
Na pequena cidade mineira de Oliveira, o SONEAR possui dois telescópios automatizados que vasculham os céus todas as noites para localizar rochas espaciais desconhecidas. É um dos poucos a conduzir tais estudos ao sul do Equador. “A maioria dos observatórios que fazem esse tipo de pesquisa estão no Hemisfério Norte”, afirma o engenheiro.
Desde que foi inaugurado, em janeiro de 2014, já encontrou 28 novos asteroides próximos à Terra. Cometas foram sete — há pouco mais de 4 mil catalogados pelo Minor Planet Center (MPC), órgão vinculado à União Astronômica Internacional (IAU) que identifica e monitora os pequenos corpos do Sistema Solar. “Somos um dos poucos amadores com essa performance, pode contar no dedo”, diz Jacques.
Ele explica que os instrumentos do SONEAR foram projetados especialmente para esse levantamento de grandes porções do céu. “Um telescópio normal pega uma pequena área com um grande aumento, já os nossos monitoram uma grande área, mas com pouco aumento”, diz. O maior dos dois cobre uma área equivalente a nove luas cheias.
Um deles detecta objetos mais apagados e lentos, distantes da Terra, enquanto o outro foca nos mais rápidos e brilhantes. “Um tenta completar o que o outro não consegue fazer”, afirma o astrônomo amador. Ele conta que, no ano passado, o SONEAR quase fechou por falta de recursos. Foi salvo pelo financiamento coletivo. “Fizemos uma vaquinha virtual e levantamos o dinheiro que nos permitiu continuar as atividades.”
FONTE: REVISTA GALILEU
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