POR SALVADOR NOGUEIRA
Na segunda-feira (2), um grupo internacional de astrônomos anunciou a descoberta de três planetas potencialmente habitáveis que, segundo Fernando Vannucci, estão “logo ali”, em torno de uma estrela a cerca de 40 anos-luz de distância. É um achado precioso, mas não pelos motivos que você tem ouvido por aí.
Primeiro, dê uma olhada no gráfico preparado pelo Laboratório de Habitabilidade Planetária da Universidade de Porto Rico que mostra a zona habitável em torno da estrela Trappist-1 e as órbitas dos três planetas.

Os três planetas e a zona habitável da estrela Trappist-1, marcada em verde. Nada parece muito habitável por esse gráfico… (Crédito: PHL/UPR)
Uma imagem às vezes fala mais do que mil palavras, e essa certamente fala um bocado. Os dois planetas mais internos, que completam uma volta em torno da estrela a cada 1,5 e 2,4 dias terrestres, respectivamente, caem na região aquém da zona habitável. E o terceiro planeta ainda não tem uma órbita definida com precisão (os cientistas não sabem se ele completa uma volta a cada 4,5 dias, a cada 73 dias, ou em algum outro período entre esses dois limites), mas muito provavelmente está além dela.
Tanto que nem usando uma definição mais “otimista” de zona habitável — região do sistema em que um planeta recebe o nível certo de radiação para manter água em estado líquido na superfície –, representada na imagem pela região verde clara, eles parecem se salvar. (Com isso, os novos planetas nem entraram no catálogo de exoplanetas potencialmente habitáveis mantido pela Universidade de Porto Rico.)
Em seu artigo na “Nature”, os pesquisadores liderados por Michaël Gillon, da Univerisdade de Liège, na Bélgica, não escondem esse fato. Veja o que eles dizem, logo no resumo: “Os dois planetas mais internos recebem quatro e duas vezes a radiação da Terra, respectivamente, colocando-os perto da borda interna da zona habitável da estrela. Oito órbitas permanecem possíveis para o terceiro planeta baseado em nosso dados, a mais provável resultando numa irradiação significativamente menor que a da Terra.”
No entanto, o press release produzido pelo ESO (Observatório Europeu do Sul) “vendeu” esses mundos como “potencialmente habitáveis”. Eles estão mentindo? É uma pegadinha? Não, é só uma consequência de estudarmos planetas num sistema tão radicalmente diferente do nosso.
A estrela Trappist-1 é o que os cientistas chamam de anã vermelha ultrafria, com temperatura superficial de cerca de 2.300 graus Celsius e apenas 8% da massa do Sol. É uma estrelinha, cujo diâmetro é mais parecido com o de Júpiter do que com o solar. Por consequência, o sistema também se parece mais com o das grandes luas jovianas do que com o espaçoso Sistema Solar. Os três planetas que cruzam ocasionalmente à frente da estrela — e com isso “entregam” sua existência a telescópios na Terra — provavelmente estão numa trava gravitacional, o que significa que eles têm a mesma face virada para a estrela o tempo todo (como Io, Europa, Ganimedes e Calisto fazem com Júpiter, e a nossa Lua faz com a Terra).

Comparação entre o Sol e a estrela Trappist-1 (Crédito: ESO)
Na prática, isso quer dizer que os planetas Trappist-1b, 1c e 1d podem ter uma face que fica permanentemente sob seu sol e outra que reside em tempo integral na escuridão. Alguns modelos sugerem que, em mundos assim, o hemisfério iluminado seja quente demais, o escuro seja frio demais, e uma pequena faixa “maomeno” exista entre o dia e a noite — um potencial oásis habitável num planeta de resto bastante hostil à vida.
SERÁ?
Aí é que entra o charme da descoberta. Não teremos de especular sobre isso durante centenas de anos, como fizemos sobre todo esse assunto de exoplanetas nos últimos quatro séculos. A partir de 2018, quando o Telescópio Espacial James Webb for lançado ao espaço pela Nasa, esses três planetas em Trappist-1 serão alvos preferenciais para pesquisa.
Eles preenchem três critérios essenciais: orbitam estrelas pequenas, passam à frente de suas estrelas com relação ao nosso ponto de vista e têm o tamanho que nos interessa, sendo mundos potencialmente rochosos.
Quando um desses mundos transita pela estrela, a luz dela que passa de raspão pela atmosfera do planeta carrega consigo — em nossa direção — uma assinatura de sua composição, além de várias outras informações a respeito do planeta. É o chamado “espectro de transmissão”, que o novo telescópio espacial da Nasa poderá detectar com grande precisão.
“Dados do Telescópio Espacial James Webb devem produzir fortes parâmetros-limite para massas planetárias [que permitirão estimar a estrutura interna desse mundos], temperaturas atmosféricas [para testar nossos modelos de zona habitável], e abundâncias de moléculas com grandes bandas de absorção, inclusive vários biomarcadores [indicativos de vida] como H2O [água], CO2 [dióxido de carbono], CH4 [metano] e O3 [ozônio]”, escrevem os autores em seu artigo científico.
Planetas como os que existem em torno de Trappist-1 são os que nos darão a primeira chance de começar a de fato comparar sistemas vizinhos ao nosso, indo além dos parâmetros básicos como características gerais da estrela e tamanho e massa dos planetas circundantes. Poderemos ver se há lá versões de planetas similares a Vênus, se há mundos com faixas habitáveis, se a circulação do calor pela atmosfera se dá conforme nossos modelos e se eles têm um jeitão parecido ou muito diferente, se comparados à Terra e aos planetas solares.
Mais empolgante ainda é o fato de que a busca feita com o telescópio Trappist (acrônimo para TRAnsiting Planets and PlanetesImals Small Telescope), localizado em La Silla, instalação do ESO no Chile, até agora mirou apenas 60 estrelas. Se numa amostragem tão pequena já achamos mundos tão interessantes e ao alcance da próxima geração de telescópios para caracterização, o que podemos esperar das próximas descobertas? Como serão os sistemas Trappist-2, 3 e 4? Não tardará a encontrarmos aí planetas do tamanho da Terra banhados pelo mesmo nível de radiação que nosso mundo ganha do Sol, numa distância que permitirá sondagens mais detalhadas.
Com efeito, a Nasa pretende lançar no ano que vem um telescópio espacial chamado TESS, cujo objetivo é encontrar justamente mais desses alvos preferenciais para posterior caracterização. Certamente, quando o James Webb for ao espaço, já haverá uma lista bastante interessante de alvos para investigar. E finalmente começaremos a testar nossas teorias sobre habitabilidade e, quem sabe, se tivermos sorte, encontrar as primeiras evidências concretas de vida fora da Terra.
Vai ser legal demais.
FONTE: http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br/
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