
POR SALVADOR NOGUEIRA
Um grupo de astrônomos no Brasil e nos Estados Unidos descobriu uma estrela quase tão velha quanto o próprio Universo, e o achado pode trazer pistas importantes sobre a infância do cosmos.
“A estrela deve ter pelo menos 13 bilhões de anos, sendo certamente uma das primeiras estrelas da Via Láctea”, afirma Jorge Meléndez, astrônomo da USP (Universidade de São Paulo) e primeiro autor do trabalho, recém-publicado no periódico “Astronomy & Astrophysics”. A idade do Universo é estimada atualmente em 13,8 bilhões de anos.
O astro, localizado a cerca de 2.500 anos-luz de distância, foi caracterizado a partir de estudos realizados com os telescópios NTT e VLT, ambos pertencentes ao ESO (Observatório Europeu do Sul), no Chile. E seu nome é intragável: 2MASS J18082002-5104378. Mas a estrela se mostrou tudo, menos ordinária.

Uma imagem de contexto da estrela, localizada a cerca de 2.500 anos-luz da Terra. (Crédito: ESO)
Sua idade avançada foi denunciada pela baixa presença de elementos químicos pesados em sua composição. Como se sabe, o Big Bang — evento expansivo que deu origem ao Universo como nós o conhecemos — só produziu os três elementos mais simples: hidrogênio, hélio e lítio. O resto da tabela periódica só seria fabricado mais tarde, no coração das primeiras estrelas. Quando elas concluíram suas vidas e detonaram como supernovas, acabaram poluindo nebulosas vizinhas com elementos pesados, como carbono, oxigênio, nitrogênio e ferro. Dessas nuvens de gás, nasceria a geração seguinte de estrelas.
“Essa nossa estrela certamente não é da primeira geração, pois tem metais em sua composição”, disse Meléndez. “Porém, pela metalicidade, ela deve ter se formado cedo na história da galáxia.” Para que se tenha uma ideia, a estrela investigada pelos cientistas tem menos de um décimo de milésimo da quantidade de ferro presente no Sol, uma estrela de meia-idade formada há 4,6 bilhões de anos.
CAÇADA CÓSMICA
A descoberta não foi acidental: ela fez parte de um projeto para encontrar as estrelas mais brilhantes que fossem ultrapobres em metais da Via Láctea. A ideia era identificar astros que pudessem iluminar o passado químico da galáxia (e, por consequência, do Universo) e que fossem suficientemente luminosos para poder ser estudados em detalhes por meio de sua assinatura de luz, o chamado espectro.
O esforço valeu a pena, e a 2MASS J1808-5104 (sim, até mesmo os astrônomos acham o nome tão intragável que o abreviam após a primeira menção!) se revelou a mais brilhante de todas as estrelas ultrapobres em metais conhecidas até hoje.
Não são muitas as que se enquadram nessa mesma categoria. “Apenas uma dúzia dessas estrelas e, entre as ultrapobres em metais, a nossa é a mais brilhante, ou seja, a que pode ser estudada em mais detalhes”, comemora Meléndez. “Já estamos começando a estudar a viabilidade de a estrela ser observada com o Hubble, para obter um espectro no ultravioleta e estudar mais elementos químicos [em sua composição].”
A esperança é de que estudos posteriores da estrela, que é apenas ligeiramente menor do que o Sol (com 88% de sua massa) e está agora chegando à fase final de sua vida, começando a se tornar uma gigante vermelha, ajudem os astrônomos a investigar como se dava a formação de estrelas numa época em que o Universo e a nossa galáxia estavam apenas engatinhando.
FONTE: http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br/
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