
Fotografia do Cometa C/2014 Q2 (Lovejoy) captada no dia 12 de fevereiro de 2015, 50 km a sul de Paris.
Crédito: Fabrice Noel
De acordo com novas observações por uma equipa internacional, o Cometa Lovejoy fez jus ao seu nome graças à libertação de grandes quantidades de álcool, bem como um tipo de açúcar, para o espaço. A descoberta marca a primeira vez que álcool etílico (ou etanol), o mesmo tipo presente nas bebidas alcoólicas, é encontrado num cometa. A descoberta reforça a evidência de que os cometas podem ter sido uma fonte de moléculas orgânicas complexas necessárias para o aparecimento da vida.
"Descobrimos que o cometa Lovejoy libertava álcool equivalente a pelo menos 500 garrafas de vinho por segundo durante o seu pico de atividade," afirma Nicolas Biver do Observatório de Paris, França, autor principal do artigo sobre a descoberta publicado dia 23 de outubro na revista Science Advances. A equipa encontrou 21 moléculas orgânicas diferentes no gás do cometa, incluindo álcool etílico e glicoaldeído, um açúcar simples.
Os cometas são os remanescentes gelados da formação do nosso Sistema Solar. São de interesse para os cientistas porque permaneceram relativamente intocados e, portanto, contêm pistas sobre a origem do Sistema Solar. A maioria orbita nas zonas frígidas bem longe do Sol. No entanto, ocasionalmente, uma perturbação gravitacional envia um cometa para mais perto do Sol, onde aquece e liberta gases, permitindo com que os cientistas determinem a sua composição.
O Cometa Lovejoy (formalmente catalogado como C/2014 Q2) foi um dos cometas mais brilhantes e ativos desde o Cometa Hale-Bopp em 1997. O Lovejoy passou pelo periélio no dia 30 de janeiro de 2015, quando libertava água a uma taxa de 20 toneladas por segundo. A equipa observou a atmosfera do cometa por volta deste dia, quando era mais brilhante e mais ativo. Observaram um brilho micro-ondas oriundo do cometa usando o radiotelescópio de 30 metros em Pico Veleta nas montanhas da Sierra Nevada, Espanha.
A luz solar energiza moléculas na atmosfera do cometa, fazendo com que brilhem em frequências de micro-ondas específicas (se as micro-ondas fossem visíveis, frequências diferentes seriam vistas como cores diferentes). Cada tipo de molécula brilha a frequências específicas, permitindo à equipa identificá-las com detetores no telescópio. O equipamento avançado foi capaz de analisar uma vasta gama de frequências simultaneamente e a equipa conseguiu determinar os tipos e quantidades de muitas moléculas diferentes no cometa, apesar do curto período de observação.
Alguns investigadores pensam que os impactos de cometas na Terra antiga forneceram moléculas orgânicas que podem ter ajudado à origem da vida. A descoberta de moléculas orgânicas complexas no Lovejoy e outros cometas dá suporte a esta hipótese.
"O resultado promove definitivamente a ideia que os cometas transportam química muito complexa," afirma Stefanie Milam do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado americano de Maryland, coautora do artigo. "Durante o Último Grande Bombardeamento, há cerca de 3,8 mil milhões de anos, quando muitos cometas e asteroides atingiam a Terra e esta estava a formar os primeiros oceanos, a vida não tinha que começar com apenas moléculas simples como água, monóxido de carbono e azoto. Ao invés, a vida teve algo muito mais sofisticado ao nível molecular. Estamos a encontrar moléculas com vários átomos de carbono. Podemos ver onde os açúcares começaram a formar-se, bem como compostos orgânicos mais complexos, tais como aminoácidos - os blocos de construção das proteínas - ou núcleo bases, os blocos de construção do DNA. Estes podem formar-se muito mais facilmente do que começando com moléculas com apenas dois ou três átomos."
Em julho, a Agência Espacial Europeia anunciou que o módulo de aterragem Philae, do orbitador Rosetta em redor do Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, havia detetado 16 compostos orgânicos enquanto descia e saltava sobre a superfície do cometa. De acordo com a ESA, alguns destes compostos desempenharam papéis-chave na fabricação de aminoácidos, núcleo bases e açúcares a partir de moléculas mais simples.
Os astronomos pensam que os cometas preservam material da nuvem antiga de gás e poeira que deu origem ao Sistema Solar. As supernovas e os ventos de estrelas gigantes vermelhas, perto do fim das suas vidas, produzem vastas nuvens de gás e poeira. Os sistemas solares nascem quando as ondas de choque dos ventos estelares e outras supernovas próximas comprimem e concentram uma nuvem de material estelar expelido até que grupos densos nessa nuvem começam a colapsar sob a sua própria gravidade, formando uma nova geração de estrelas e planetas.
Estas nuvens contêm inúmeros grãos de poeira. O dióxido de carbono, água e outros gases formam uma camada de gelo sobre a superfície destes grãos, assim como se forma geada nas janelas dos carros durante as noites frias e úmidas. A radiação no espaço alimenta as reações químicas nesta camada de gelo para produzir moléculas orgânicas complexas. Os grãos de gelo tornam-se incorporados nos cometas e asteroides, alguns dos quais impactam planetas jovens como a Terra primitiva, entregando moléculas orgânicas contidas dentro deles.
"O próximo passo é ver se o material orgânico encontrado nos cometas veio da nuvem primordial que formou o Sistema Solar ou se foi fabricado mais tarde, dentro do disco protoplanetário que rodeava o jovem Sol," afirma Dominique Bockelée-Morvan do Observatório de Paris, coautora do artigo.
FONTE: ASTRONOMIA ONLINE
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